Armínio, Tempestade Perfeita e tendências seculares

Nesse texto listei mais de 20 ações que você pode investir
Martin Kirsten

Martin Kirsten

Sócio do GuiaInvest. Mestre em Economia pela UFRGS e assina o Recado do Economista.
arminio crise coronavirus

Olá, como você vai?

Quinta-feira passada assisti a live de Armínio Fraga em que ele monta a sua tese de tempestade perfeita acerca do Brasil.

Ela seria composta de uma tríade de crises: a sanitária, a econômica e a política, com as 3 se retroalimentando entre si em um círculo vicioso.

Apesar de toda argumentação lógica do ex-presidente do Banco Central fazer todo sentido, ela é bastante pessimista.

A 3 crises são latentes, sem dúvida nenhuma.

A sanitária, a mais grave de todas, deve tomar os seus piores contornos nas próximas semanas.

Essa crise exige aumento de gastos do governo em meio a uma quarentena, ou seja, em um ambiente em que a arrecadação tributária irá sofrer uma queda forte e os gastos precisarão subir para se evitar o pior.

Não sobrou fiscalista para defender o contrário.

Enquanto isso, a relação entre os poderes parece disfuncional, somado a isso as recentes saídas de dois ministros importantes, Sérgio Moro e Henrique Mandetta.

A constante presença do presidente Bolsonaro em manifestações e uma união do governo com o Centrão também são fatores que deixam a trajetória da estrada ainda mais nebulosa.

Dito tudo isso, uma piora do quadro fiscal está dada.

Teremos de fato um déficit primário (resultado das contas do governo antes do pagamento de juros e amortização da dívida pública) na casa dos 8-10 por cento do PIB, um resultado sem precedentes mas que será temporariamente necessário.

O Brasil, na posição de país emergente, já sofre com isso e, não à toa, o dólar já chegou a morder a casa dos 5,70.

Só não temos inflação por conta disso por já estarmos vindo de um cenário econômico ruim antes do Coronavírus e por toda capacidade ociosa que temos na economia.

2020 selou uma década perdida.

Triste, mas vida que segue.

Armínio se mostrou muito preocupado com a situação das pessoas mais vulneráveis, do meio ambiente e das empresas no Brasil, dada a nossa falta de infraestrutura e educação.

A partir disso ele pontuou que não acha que a bolsa brasileira esteja tão barata.

De toda forma, Armínio colocou dois pontos importantes sobre investimento em bolsa:

  • Se ele não tivesse nada em ações, agora seria um momento para entrar em alguma coisa;
  • Se o seu prazo de investimento é longo, acima de 20 anos, agora é um bom momento;
  • No momento, ele tem mais medo de entrar errado do que perder uma pernada de alta.

Digamos que concordo com tudo que Fraga falou, mas tomo a liberdade de pontuar além.

A questão central aqui é que se você pretende estar ganhando daqui a um ano, talvez a bolsa não seja para você.

Em nenhuma hipótese, mesmo estivéssemos vivendo sob um céu de brigadeiro.

Não que você não possa estar ganhando daqui a um ano, inclusive acho bem provável que isso aconteça.

Mas isso não validaria a entrada na bolsa com intenção de ganhos de curto prazo ou para quem entrar de qualquer jeito.

Discordo de Armínio que a bolsa não esteja barata, mas talvez estejamos de acordo se a hipótese for de que a bolsa não esteja barata para se entrar de qualquer jeito nela.

Quando o mercado está bombando, quanto pior a ação que você tiver, mais ela pode se valorizar, pois você está em um ponto do ciclo em que o que é bom já se valorizou.

De fato correr mais riscos se torna um pouco necessário, daí uma fuga para small caps ou até mesmo cases de turnaround faz algum sentido. Mas não agora.

Agora, mais do que nunca, é preciso focar em qualidade.

Acredito ter falado disso em todas as semanas desde que os riscos do Coronavírus foram postos.

A chave daqui para adiante está na simplicidade e na humildade.

Humildade para assumirmos que não conhecemos o vírus, não entendemos sua dinâmica, os seus possíveis remédios, nem a sua cura.

Vamos deixar paro os infectologistas e para os pesquisadores que procuram vacinas e tratamentos.

Me desculpem os conspiracionistas, mas até mesmo a China ainda está sofrendo muito com esse baque que o mundo sofreu.

Não sabemos do futuro e temos que trilhar os caminhos mais previsíveis possíveis, se é que existe algo previsível.

Falo também da simplicidade porque é preciso investir em boas empresas tentar fazer projeções ou modelos (têm como projetar ou modelar algo agora?).

O momento é de olhar para a reputação e histórico das empresas.

Claro, é importante levar em conta tendências seculares.

O e-commerce está mais forte do que nunca, o que é bom para Magazine Luíza (MGLU3), ViaVarejo (VVAR3), B2W (BTOW3), Centauro (CNTO3).

O brasileiro está mais educado financeiramente e as plataformas estão crescendo, assim como o número de CPFs em bolsa. Bom para B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11).

O serviço de um banco digital é realmente disruptivo e de agradável experiência.

Mas na hora do aperto, da necessidade de se financiar, as empresas estão correndo para Santander (SANB11), Bradesco (BBDC4), Itaú (ITUB4 ou ITSA4, tanto faz) e Banco do Brasil (BBAS3), que além de grandes e sólidos, possuem capacidade de atender uma demanda por liquidez das empresas e população em geral.

O ensino a distância vai se fortalecer. Ponto para Yduqs (YDUQ3) e Cogna (COGN3).

A Vivo (VIVT4) surfa essa onda de carona.

Varejo farmacêutico se mostrou essencial: Raia Drogasil (RADL3) e Hypera (HYPE3) se destacam.

Além disso, serviços de utilidade pública mostram sua perenidade. Ponto para Sanepar (SAPR11), Taesa (TAEE11), Transmissão Paulista (TRPL4) e diversas outras.

Descolada das demais, Weg (WEGE3) segue voando.

Dólar lá nas alturas beneficia muito Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11).

Atendendo a uma cadeia de suprimentos básicos que não podem parar, Rumo (RAIL3 ou RLOG3) segue a todo vapor.

Outras empresas top de linha podem sofrer agora mas sem dúvida se fortalecerão no pós-crise vendo a concorrência definhar: Lojas Renner (LREN3), Natura (NTCO3), Localiza (RENT3).

Vale citar aqui também Vale (VALE3), Pão de Açúcar (PCAR3) e frigoríficos (JBBS3, MRFG3, BRFS3, BEEF3).

A questão aqui é sempre do foco na qualidade.Repito.

Se você comprar ações agora, em 2025 vai lembrar de como eram bons os preços de 2020.

O que você não pode é assumir riscos desnecessários, esqueça Azul e Gol por um momento.

Petro Rio pode ser ótima, mas vale a pena correr esse risco se uma Itaúsa está barata?

Para Banco Inter, Banco Pan e afins vale a mesma ideia.

Não há razão para inventar moda no momento.

A bolsa brasileira estar barata não significa que ela não possa cair. Pode piorar antes de melhorar e me soa bem razoável que isso aconteça.

Eu achava bolsa barata em 120 mil pontos.

Hoje estamos em 80 mil, sem que as empresas tenham perdido ⅓ do seu valor.

Estamos muito perto de encarar a pior parte da crise.

Se cuidem que logo mais poderemos falar de retomada.

Seguimos adiante.

Tudo passa.

Obs.: para quem quer entender como selecionamos empresas de qualidade, aqui está um tutorial simples.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.

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