Entrevista com Vera Rita de Mello Ferreira: O Impacto da Psicologia em seus Investimentos e na Vida

Nesta entrevista, a professora e consultora de psicologia econômica Vera Rita de Mello Ferreira explica o quanto podemos ser afetados pelas 'ciladas da mente' ao investir. Entenda e previna-se!
Andre Fogaca

Andre Fogaca

Sócio-fundador do GuiaInvest e formado em Administração e pós-graduado em Economia pela UFRGS.

Nesta entrevista, a professora e consultora de psicologia econômica Vera Rita de Mello Ferreira explica o quanto podemos ser afetados pelas ‘ciladas da mente’ ao investir. Entenda e previna-se!


Um dos maiores mitos dos investimentos é acreditar que somos seres racionais e imunes às questões emocionais. Não é por acaso que esse tema já foi abordado aqui no blog diversas vezes.

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Reconhecer que, independentemente do que façamos, seremos sempre afetados pelas ciladas do nosso cérebro, é o primeiro passo para lidar com isso da melhor forma.

Afinal, não é porque somos afetados pelas nossas emoções que não podemos usar isso a nosso favor. Pelo contrário.

Para entender melhor os impactos das questões emocionais em nossos investimentos – e na vida – fui atrás da maior referência no Brasil na área.

Entrevista com Vera Rita de Mello Ferreira

Entrevista com Vera Rita de Mello Ferreira

Vera Rita de Mello Ferreira é professora e consultora de psicologia econômica, já fez trabalhos para o Banco Central, é membro do Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e escreveu os primeiros livros de psicologa econômica no Brasil.

Além disso, é membro da International Network for Financial Education (INFE) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No bate-papo, Vera revela quais são os erros mais cometidos por investidores no que diz respeito às questões emocionais.

Também indica livros que podem ajudar na sua capacitação como investidor, conta quais conselhos daria a seu melhor amigo a respeito de como lidar com o dinheiro e muito mais.

Uma entrevista enriquecedora, interessante e cheia de boas lições.

Acompanhe e comprove!

1) Por que nos deixamos levar tanto pelas emoções ao investir?

Por que nos deixamos levar tanto pelas emoções ao investir?

Vera Rita de Mello Ferreira – Razão e emoção são indissociáveis. Estão presentes em todas as situações que vivemos – não só na hora de investir – e são tão poderosas que podem não apenas influenciar o tipo de decisões que tomamos.

Por exemplo: se a pessoa acorda mais animada terá uma visão mais otimista e vai avaliar as perspectivas de forma mais otimista durante o dia, até, por exemplo, correndo mais risco.

Por outro lado, se acorda de mau humor, vai analisar suas opções de outro jeito, o que vai impactar nas escolhas que fará.

Talvez fique impaciente e não consiga nem olhar tudo com calma. Mas se estiver mais serena, terá, provavelmente, mais chances de examinar com mais cuidado, terá isenção e mais sucesso nas escolhas.

Quando estamos tristes, há um impacto bem direto que é o seguinte: quando estamos na posição de compradores tendemos a comprar por valores mais altos. Se estivermos na posição de vendedores tendemos a vender por valores mais baixos.

Importante ressaltar que isso vale não só para investimentos. As emoções sempre estão presentes, em todas as esferas de nossas vidas.

Quando ficam muito fortes acontece uma espécie de sequestro emocional. A pessoa nem pensa. A parte da mente responsável por pensar fica meio paralisada. Isso acontece na euforia, no pânico e, em menor grau, nas situações que falei acima.

Não dá para imaginar nenhum tipo de decisão em que as emoções não estejam presentes. Isso só acontece quando a pessoa tem uma lesão neurológica na área responsável pelo processamento das decisões.

2) Quais são os erros que os investidores mais cometem no que diz respeito às questões emocionais?

Quais são os erros que os investidores mais cometem no que diz respeito às questões emocionais?

Vera Rita de Mello Ferreira – São muitos, com destaque para o efeito manada e para o “comprar na alta e vender na baixa”.

Muitas vezes o investidor faz exatamente o oposto do que deveria, embora seja naturalmente difícil tomar decisões em situações de incerteza.

Você não pode garantir exatamente quando vai acontecer uma alta ou uma baixa, não é algo preto no braco, mas as pessoas tendem a ir com a manada muito mais frequentemente do que analisam com calma o que poderiam fazer.

Outro erro comum é a aversão à perda. Investidores nem sempre têm aversão ao risco, mas têm aversão a perdas.

Quando a pessoa está perdendo, está na iminência de perder, ou já perdeu e está inconformada, acaba se expondo a mais riscos do que faria normalmente.

Um cenário muito comum é quando a pessoa compra uma ação e não se conforma se ela começa a cair. Não aguenta segurar e acaba vendendo por muito menos do que comprou.

Outro problema que é apontado por Daniel Kahneman, um dos mais respeitados psicólogos especializados em finanças comportamentais do mundo, é o otimismo excessivo.

Os investidores, em geral, não enxergam risco. Acham que tudo vai dar certo sempre, que a ação que comprou vai continuar subindo. Isso explica as bolhas, por exemplo. A maioria prefere acreditar que tudo o que comprou vai subir para sempre.

Há, ainda, o problema da autoconfiança exagerada. A pessoa acha que, com ela, nenhum problema vai acontecer. Se ela comprou, é claro que vai dar certo.

Em razão disso, não consegue aceitar quando as coisas não ocorrem como ela imagina. Isso é mais comum entre os homens do que entre as mulheres, que, em geral, têm menos experiência com dinheiro.

Por serem mais inseguras, elas vão atrás de mais informação e são mais cautelosas. No longo prazo tendem a ter maiores retornos do que os homens, que, generalizando, ficam pulando de galho em galho e tentam bater o mercado.

O Kahneman falou algo bem interessante a respeito disso em uma passagem recente pelo Brasil. Ele disse:

“Quanto mais ideias os investidores têm, mais dinheiro eles perdem.”

Quem ganha é o investidor institucional, que não tem tanto envolvimento emocional e conta com várias cabeças pensando e tem sempre uma estratégia por trás.

3) De que forma podemos evoluir para sermos racionais ao investir?

De que forma podemos evoluir para sermos racionais ao investir?

Vera Rita de Mello Ferreira – Uma coisa precisa ficar clara: quando falamos em sermos racionais, temos que entender isso como ser integradamente racional e emocional, porque não é possível ser puramente racional.

Ser racional significa administrar melhor seus impulsos e suas emoções – e usar isso a seu favor, não contra.

4) Talvez o efeito manada seja o mais clássico exemplo da irracionalidade do investidor. Ainda assim, é muito comum. Como um investidor iniciante pode ficar imune ao comportamento da multidão?

efeito manada

Vera Rita de Mello Ferreira – Na psicologia não chamamos de “irracional”, porque todos os comportamentos têm uma razão de ser.

As pessoas oferecem razões. Eu, particularmente, faço um contraponto entre racional e emocional lembrando, outra vez, que são coisas indissociáveis.

O ato de seguir a manada, que é o primeiro comportamento de aprendizado humano, ocorre por meio de imitação. Em caso de insegurança, incerteza ou pânico, olhamos para o lado e fazemos o que todos estão fazendo.

No caso do investidor iniciante, o que ajuda é ficar longe de notícias, da influência de outros investidores e de informações que ficam bombardeando a cabeça dele.

Receber atualizações a cada hora ou a cada dia causa uma tentação de fazer o que achamos que todo mundo está fazendo.

Existem até estudos que mostram que as pessoas que ficam acompanhando uma ação sem receber atualizações constantes têm retornos melhores do que quem recebe atualizações constantes e fica pulando de galho em galho.

5) De que forma essa irracionalidade impacta em outras esferas da vida?

De que forma essa irracionalidade impacta em outras esferas da vida?

Vera Rita de Mello Ferreira – Esses comportamentos que são desfavoráveis, como quando a emoção toma conta da pessoa, aparecem em todos os setores da vida.

Por exemplo: a pessoa que aparentemente está guiando seu carro de forma civilizada e de repente toma uma fechada, sai do carro e dá um tiro no outro foi tomada pelas emoções; pessoas que entram em pirâmides financeiras também estão dominadas por um impulso de ter muito dinheiro, rápido e fácil.

Pessoas que comem muito e estão acima do peso são outro exemplo – não é necessário comer tanto e elas sabem que é ruim para a saúde, mas não conseguem se controlar; fumar ou ter qualquer hábito de vida que não seja saudável também estão na mesma lógica.

Esses problemas ocorrem em todos os casos em que os impulsos se manifestam e as pessoas não conseguem administrar corretamente.

O ser humano tem um impulso muito forte de inércia. Tentamos, por natureza, poupar energia. É algo que vem dos nossos ancestrais. Descendemos de indivíduos que se pouparam o suficiente para viver até poderem transmitir seus genes.

Antes, a questão da sobrevivência era muito impactante porque a expectativa de vida era baixíssima. Só quem conseguia se guardar mais sobrevivia.

Ainda temos esse impulso dentro de nós, só que ele não é mais necessário, porque a sobrevivência em termos básicos está garantida – ao menos em nosso meio, porque a maioria dos seres humanos ainda precisa lutar pela sobrevivência diária, infelizmente.

Ganhamos peso e fazemos as coisas inadequadas porque estamos com a cabeça programada para nos pouparmos quando esse não é mais o caso.

6) Que livros recomenda ao investidor interessado em estudar melhor as finanças comportamentais?

Que livros recomenda ao investidor interessado em estudar melhor as finanças comportamentais?

Vera Rita de Mello Ferreira – Recomendo os meus três livros:

O primeiro, que é bem introdutório, é uma leitura leve e se chama Decisões econômicas: você já parou para pensar? (Editora Évora)

O segundo é um livro mais técnico chamado Psicologia econômica (Editora Campus Elsevier). Há uma seção sobre dinheiro e outra sobre tomada de decisão, que aborda questões ligadas aos investimentos.

O mais recente se chama A cabeça do investidor (Editora Évora). Nele, falo tudo o que disse aqui e muito mais em uma linguagem leve e descontraída.

7) Falando das pessoas que ainda não são investidoras e que pouco se interessam por cuidar melhor do seu dinheiro, até que ponto as questões psicológicas são “culpadas” por esse desinteresse?

questões psicológicas desinteresse em investir

Vera Rita de Mello Ferreira – No Brasil, as questões psicológicas não são as únicas responsáveis pela dificuldade das pessoas em administrar o dinheiro e fazer investimentos.

Tivemos uma série de fatores muito desfavoráveis ao longo da nossa história. A inflação, sem dúvida, foi um dos principais motivos.

Ela acabou com o início do Plano Real, mas até então era praticamente impossível investir de forma consistente. Isso explica por que as pessoas não têm o costume de guardar dinheiro, fazer previdência, seguros, nada disso.

Vira e mexe a gente vive cenários de muita incerteza, como o atual. Em termos de bolsa de valores temos um mercado imaturo. Não temos a cultura do investimento.

Por outro lado, temos uma renda fixa que remunera bastante. Quem guarda dinheiro muitas vezes procura a poupança ou fundos clássicos de renda fixa.

Nossa esperança é ajudar a desenvolver o hábito entre crianças e jovens para termos gerações mais interessadas e preparadas para tudo isso no futuro.

8) Além dos investimentos, onde mais a psicologia econômica pode ser percebida no dia a dia? Quais são os erros mais comuns e como evitá-los?

erros mais comuns psicologia economica

Vera Rita de Mello Ferreira – Para citar dois exemplos bem comuns no dia a dia:

  • Exemplo 1: ir ao supermercado com muita fome e acabar comprando bem mais do que deveria;
  • Exemplo 2: não resistir a uma liquidação “imperdível”.

Mas podemos estender a importância da psicologia econômica a praticamente todas as esferas.

Por exemplo, fiz um trabalho de consultoria para a uma multinacional do setor de alimentos que tem um programa global para enfrentar a obesidade infantil.

Levei os conhecimentos da psicologia econômica e economia comportamental para eles desenharem um projeto que se transformou em um jogo para crianças para incentivá-las a comerem mais verduras, legumes e frutas e a se exercitarem mais.

Para chegar até esse resultado é fundamental conhecer o funcionamento mental.

No dia a dia há varias situações. Por exemplo: quando a pessoa faz promessas para o futuro, do tipo “vou começar academia na segunda-feira”, mas quando o dia chega não vai e fica procrastinando. Ou vai hoje ou não vai!

O autocontrole só existe no presente. Não existe no futuro. Chamo isso de crença infundada na capacidade futura.

O problema é que hoje a pessoa não percebe que está fazendo isso e acha que na semana que vem será superfácil.

Na questão do consumo, isso se aplica desde a perceber que os preços são apresentados terminando como “R$ 999,99” como uma pegadinha simples para acharmos que não é tão caro. Isso funciona porque a gente adora se enganar.

Uma dica para evitar o consumo desenfreado é a seguinte: se está no vermelho, deixe o cartão em casa e saia com o dinheiro contado. Dinheiro vivo inibe o uso.

Ficamos com mais pena de gastar as cédulas do que pagar com o cartão. Isso tem a ver com o conceito de aversão à perda (que já foi apresentado aqui no blog).

9) Qual seria o conselho que daria a seu melhor amigo a respeito de como lidar com o dinheiro?

Qual seria o conselho que daria a seu melhor amigo a respeito de como lidar com o dinheiro?

Vera Rita de Mello Ferreira – Posso até falar de regras que eu mesma uso.

  1. Não gastar mais do que eu tenho e guardar tudo o que for possível;
  2. Criar uma planilha para registrar os gastos é importante, mas vale dizer que para algumas pessoas fazer isso é muito útil, para outras é enganoso, pois elas fazem e acham que com isso está tudo resolvido, mas aí não seguem direito e ficam com a ilusão de que está tudo certo;
  3. Conversar com pessoas de confiança ou planejadores financeiros independentes que podem ajudar a pessoa a se organizar é outro bom caminho;
  4. Ter uma poupança de curto prazo, de preferência em uma outra conta para emergências, e outra para investir no longo prazo, que não deve ser mexida;
  5. Ter um objetivo financeiro, o que ajuda a guardar dinheiro. Em família, guardar junto também encoraja os dois.

Para pensar

Os ensinamentos da professora Vera Rita de Mello Ferreira são valiosos, não?

Eu mesmo refleti sobre vários aspectos que estão me ajudando a ser um investidor melhor e uma pessoa mais consciente a respeito do que realmente importa.

E para você, quais foram os grandes aprendizados? Deixe seu registro nos comentários e amplie esse debate que é tão importante.

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