Recado para o meu melhor leitor

Martin Kirsten

Martin Kirsten

Sócio do GuiaInvest. Mestre em Economia pela UFRGS e assina o Recado do Economista.

Olá, como você vai?

Hoje eu trago um conselho de amigo e, como todo bom amigo, nem sempre falamos do que você vai gostar de ouvir.

Por isso peço que você preste atenção e reflita sobre o que vai ser falado nas próximas linhas.

Pensa aqui comigo e vê se isso faz sentido para você…

As projeções das instituições financeiras para Taxa Selic é de uma redução para 4,75 por cento ao ano até o final de 2019.

Para 2020, a projeção é que a taxa permaneça nesse patamar.

Mas isso não é um consenso: há instituições estimando a Selic em 4 por cento ao ano ao final de 2020.

Digamos que a Selic chegue mesmo em 4 por cento ao ano ao final de 2020. Apenas uma hipótese.

O que aconteceria com o dinheiro dos brasileiros que está hoje na renda fixa?

“Obviamente iria para bolsa de valores, Martin. Ninguém vai querer ver a própria grana rendendo 4 por cento ao ano” – você pode estar pensando.

Então, isso é o que eu e você gostaríamos que acontecesse.

Mas, sinceramente, não acho que vai ser assim.

Vai ter muita gente investindo em produtos mais exóticos de renda fixa, como as debêntures.

Debêntures são títulos de dívidas de empresas. Você empresta dinheiro para uma empresa e recebe juros em troca.

Vai ter muita debênture oferecendo 150 por cento do CDI ou até mais.

Isso parece bom em um primeiro olhar. Mas é conversa mole.

O problema é que vai ter muita gente caindo nessa conversa e eu estou aqui para te alerta para o risco desse tipo de investimento.

Veja: com uma Selic em 4 por cento (hipoteticamente), 150 por cento do CDI representa um retorno de apenas 6 por cento ao ano.

Mesmo com 150 por cento do CDI, vai levar 15 anos para você dobrar seu capital. O retorno ainda é baixo.

Só fica um aviso: debênture não tem volatilidade, mas tem risco de calote.

E é aqui que mora o perigo.

Você dorme tranquilo todos os dias pela ausência do sobe e desce, mas do dia para noite seu dinheiro pode virar pó.

Pode parecer exagero, mas não é.

A têxtil Karsten e a Lupatech, empresa petrolífera e de biocombustíveis, são casos recentes de empresas que não pagaram os seus credores.

Seus investidores foram vítimas da tentação de ver seu dinheiro render mais do que 100 por cento do CDI e sem volatilidade.

Olhar só para percentual do CDI e volatilidade deixa o investidor cego.

Pergunto: você investiria em uma debênture de uma empresa que paga 200 por cento do CDI (hipoteticamente) se soubesse dessa informação da imagem abaixo?

Acredito que não, correto?

Emprestar dinheiro para uma empresa com péssimos resultados é arriscado demais.

O fato é que o ser humano se apega somente àquilo que pode ser observado.

No mercado de debêntures, não observamos volatilidade.

Pense comigo aqui…

É óbvio que é prazeroso você ver o seu dinheiro render mais que 100 por cento do CDI em um investimento que não oscila.

Mas existe um porém.

Aquilo que não oscila esconde os riscos de verdade.

Isso dá a impressão de que há menos risco do que realmente tem.

Na bolsa de valores ocorre o contrário: as ações possuem bastante volatilidade.

Isso nos dá a sensação de que há mais risco do que realmente tem.

Como disse o gestor de fundos Henrique Bredda:

“As ações da AmBev oscilam mais do que as debêntures, mas tem bem menos risco do que muitas delas. Se você achar que oscilações são sinônimo de risco, você pode ser vítima de armadilhas”.

No fim das contas, o mercado acaba sendo uma competição de nós contra nós mesmos.

A única pessoa que pode atrapalhar você, é você mesmo.

Erros no meio do caminho são normais e devem ser tratados com naturalidade.

Não aceite investimentos exóticos.

Se você quer ficar na renda fixa porque não se sente seguro na bolsa, fique no Tesouro Direto.

Não é um mal investimento, você só vai multiplicar o seu patrimônio de forma mais lenta.

Não assuma riscos desconhecidos por X por cento a mais do CDI.

Quer rentabilidades maiores que a da renda fixa? Vá para o mercado de ações e invista em bons negócios.

Não tente achar aquela empresa que promete disparar.

Esquece Oi, esquece turnaround da Cielo. Nada contra elas, mas é impossível prever o futuro.

Então compre o que foi bem e segue indo bem.

Lembre que todo mundo tem acesso às mesmas informações que você.

Se você é iniciante e achar que é espertinho, é porque alguém mais esperto que você te colocou nessa situação e, provavelmente, vai ganhar em cima de você.

Você quer ter sucesso nos seus investimentos?

Não tem segredo: poupe, tenha o pé no chão, desconfie de tudo, simplifique, pense como os grandes investidores pensariam e nunca cogite que você é mais esperto que o mercado.

Um abraço e até semana que vem.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.

 

 

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