Recessão de 2,96%, Selic a 3%

Juro baixo: eventos passageiros que vieram para ficar
Martin Kirsten

Martin Kirsten

Sócio do GuiaInvest. Mestre em Economia pela UFRGS e assina o Recado do Economista.
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Olá, como você vai?

O boletim Focus trouxe dados importantes sobre as expectativas de mercado para esse ano.

Espera-se uma recessão de quase 3 por cento em 2020 e uma inflação ainda mais baixa, de apenas 2,23 por cento.

Ainda que isso seja só uma expectativa formada em Abril que diga respeito a um ano inteiro (e que provavelmente estará errada até lá), ela já diz muito sobre uma nova realidade da economia brasileira.

Estamos passando por uma crise deflacionária.

A brusca queda na demanda agregada conjunta com a necessidade de se queimar estoques em empresas dos mais diversos setores, acaba puxando para baixo as expectativas de aumento nos preços.

Serão comuns os meses que apresentaremos deflação ao longo de 2020.

Uma grande preocupação no radar dos investidores é a questão fiscal.

Ora, estamos em uma crise que exige gastos extraordinários por parte do governo e soma-se a isso uma intensa queda da arrecadação tributária.

A dívida pública irá subir, inevitavelmente. Essa é a única forma de reduzirmos um dilema entre saúde e economia.

Em tempos passados, seria comum pensarmos que teríamos inflação a frente, que seria causada por uma forte desvalorização cambial.

Mas a questão que fica é: como repassar uma eventual desvalorização do real frente ao dólar aos preços finais?

A preços atuais a demanda agregada já está represada.

Não há como haver um repasse geral aos preços finais.

Isso já leva a média do mercado acreditar em uma Selic a 3 por cento ao ano.

Conforme os efeitos recessivo (e deflacionários) se tornem mais agudos, mais quedas poderão ser computadas nas expectativas.

Se falar em Selic a 3 por cento há alguns meses parecia insanidade, pasme leitor, hoje falamos em Selic a zero.

Não acho que Selic a zero seja de fato um patamar viável, mas por que não veremos a nossa taxa básica na casa de 2 ou 1 por cento?

Quem diria que uma recessão causaria uma mudança tão drástica na forma de encararmos a nossa política monetária.

Esse também parece, cada vez mais, ser o novo normal do mundo.

Os Bancos Centrais colocam liquidez em escalas sem precedentes na economia e a inflação não sobe.

Estamos vivendo uma espécie de japanização do mundo: muita liquidez, dívidas corporativas astronômicas e estagnação econômica.

A questão é que, se por um lado, esse cenário parece ter vindo para ficar nas economias avançadas, por outro, no Brasil esse fenômeno parece ser mais passageiro.

A questão é que nos acostumaremos a conviver com uma Taxa Selic extremamente baixa e não acredito que ela deverá voltar aos patamares de 8 ou 9 por cento (tal qual estavam precificados os juros longos até semana passada).

Por conta de um evento passageiro, a taxa selic baixa no Brasil, mais do que nunca, veio para ficar.

No final da crise, teremos muita liquidez no mercado.

Esse dinheiro “de sobra” terá de ir para algum lugar.

Como falei semana passada, atividade econômica e bolsa não necessariamente andam juntas.

Com juro tão baixo, pagar pouco por muita qualidade me parece um jogo onde se tem pouco a perder e muito a ganhar.

Posso estar errado.

O tempo dirá.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.

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