Armínio, Tempestade Perfeita e tendências seculares

arminio crise coronavirus

Olá, como você vai?

Quinta-feira passada assisti a live de Armínio Fraga em que ele monta a sua tese de tempestade perfeita acerca do Brasil.

Ela seria composta de uma tríade de crises: a sanitária, a econômica e a política, com as 3 se retroalimentando entre si em um círculo vicioso.

Apesar de toda argumentação lógica do ex-presidente do Banco Central fazer todo sentido, ela é bastante pessimista.

A 3 crises são latentes, sem dúvida nenhuma.

A sanitária, a mais grave de todas, deve tomar os seus piores contornos nas próximas semanas.

Essa crise exige aumento de gastos do governo em meio a uma quarentena, ou seja, em um ambiente em que a arrecadação tributária irá sofrer uma queda forte e os gastos precisarão subir para se evitar o pior.

Não sobrou fiscalista para defender o contrário.

Enquanto isso, a relação entre os poderes parece disfuncional, somado a isso as recentes saídas de dois ministros importantes, Sérgio Moro e Henrique Mandetta.

A constante presença do presidente Bolsonaro em manifestações e uma união do governo com o Centrão também são fatores que deixam a trajetória da estrada ainda mais nebulosa.

Dito tudo isso, uma piora do quadro fiscal está dada.

Teremos de fato um déficit primário (resultado das contas do governo antes do pagamento de juros e amortização da dívida pública) na casa dos 8-10 por cento do PIB, um resultado sem precedentes mas que será temporariamente necessário.

O Brasil, na posição de país emergente, já sofre com isso e, não à toa, o dólar já chegou a morder a casa dos 5,70.

Só não temos inflação por conta disso por já estarmos vindo de um cenário econômico ruim antes do Coronavírus e por toda capacidade ociosa que temos na economia.

2020 selou uma década perdida.

Triste, mas vida que segue.

Armínio se mostrou muito preocupado com a situação das pessoas mais vulneráveis, do meio ambiente e das empresas no Brasil, dada a nossa falta de infraestrutura e educação.

A partir disso ele pontuou que não acha que a bolsa brasileira esteja tão barata.

De toda forma, Armínio colocou dois pontos importantes sobre investimento em bolsa:

  • Se ele não tivesse nada em ações, agora seria um momento para entrar em alguma coisa;
  • Se o seu prazo de investimento é longo, acima de 20 anos, agora é um bom momento;
  • No momento, ele tem mais medo de entrar errado do que perder uma pernada de alta.

Digamos que concordo com tudo que Fraga falou, mas tomo a liberdade de pontuar além.

A questão central aqui é que se você pretende estar ganhando daqui a um ano, talvez a bolsa não seja para você.

Em nenhuma hipótese, mesmo estivéssemos vivendo sob um céu de brigadeiro.

Não que você não possa estar ganhando daqui a um ano, inclusive acho bem provável que isso aconteça.

Mas isso não validaria a entrada na bolsa com intenção de ganhos de curto prazo ou para quem entrar de qualquer jeito.

Discordo de Armínio que a bolsa não esteja barata, mas talvez estejamos de acordo se a hipótese for de que a bolsa não esteja barata para se entrar de qualquer jeito nela.

Quando o mercado está bombando, quanto pior a ação que você tiver, mais ela pode se valorizar, pois você está em um ponto do ciclo em que o que é bom já se valorizou.

De fato correr mais riscos se torna um pouco necessário, daí uma fuga para small caps ou até mesmo cases de turnaround faz algum sentido. Mas não agora.

Agora, mais do que nunca, é preciso focar em qualidade.

Acredito ter falado disso em todas as semanas desde que os riscos do Coronavírus foram postos.

A chave daqui para adiante está na simplicidade e na humildade.

Humildade para assumirmos que não conhecemos o vírus, não entendemos sua dinâmica, os seus possíveis remédios, nem a sua cura.

Vamos deixar paro os infectologistas e para os pesquisadores que procuram vacinas e tratamentos.

Me desculpem os conspiracionistas, mas até mesmo a China ainda está sofrendo muito com esse baque que o mundo sofreu.

Não sabemos do futuro e temos que trilhar os caminhos mais previsíveis possíveis, se é que existe algo previsível.

Falo também da simplicidade porque é preciso investir em boas empresas tentar fazer projeções ou modelos (têm como projetar ou modelar algo agora?).

O momento é de olhar para a reputação e histórico das empresas.

Claro, é importante levar em conta tendências seculares.

O e-commerce está mais forte do que nunca, o que é bom para Magazine Luíza (MGLU3), ViaVarejo (VVAR3), B2W (BTOW3), Centauro (CNTO3).

O brasileiro está mais educado financeiramente e as plataformas estão crescendo, assim como o número de CPFs em bolsa. Bom para B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11).

O serviço de um banco digital é realmente disruptivo e de agradável experiência.

Mas na hora do aperto, da necessidade de se financiar, as empresas estão correndo para Santander (SANB11), Bradesco (BBDC4), Itaú (ITUB4 ou ITSA4, tanto faz) e Banco do Brasil (BBAS3), que além de grandes e sólidos, possuem capacidade de atender uma demanda por liquidez das empresas e população em geral.

O ensino a distância vai se fortalecer. Ponto para Yduqs (YDUQ3) e Cogna (COGN3).

A Vivo (VIVT4) surfa essa onda de carona.

Varejo farmacêutico se mostrou essencial: Raia Drogasil (RADL3) e Hypera (HYPE3) se destacam.

Além disso, serviços de utilidade pública mostram sua perenidade. Ponto para Sanepar (SAPR11), Taesa (TAEE11), Transmissão Paulista (TRPL4) e diversas outras.

Descolada das demais, Weg (WEGE3) segue voando.

Dólar lá nas alturas beneficia muito Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11).

Atendendo a uma cadeia de suprimentos básicos que não podem parar, Rumo (RAIL3 ou RLOG3) segue a todo vapor.

Outras empresas top de linha podem sofrer agora mas sem dúvida se fortalecerão no pós-crise vendo a concorrência definhar: Lojas Renner (LREN3), Natura (NTCO3), Localiza (RENT3).

Vale citar aqui também Vale (VALE3), Pão de Açúcar (PCAR3) e frigoríficos (JBBS3, MRFG3, BRFS3, BEEF3).

A questão aqui é sempre do foco na qualidade.Repito.

Se você comprar ações agora, em 2025 vai lembrar de como eram bons os preços de 2020.

O que você não pode é assumir riscos desnecessários, esqueça Azul e Gol por um momento.

Petro Rio pode ser ótima, mas vale a pena correr esse risco se uma Itaúsa está barata?

Para Banco Inter, Banco Pan e afins vale a mesma ideia.

Não há razão para inventar moda no momento.

A bolsa brasileira estar barata não significa que ela não possa cair. Pode piorar antes de melhorar e me soa bem razoável que isso aconteça.

Eu achava bolsa barata em 120 mil pontos.

Hoje estamos em 80 mil, sem que as empresas tenham perdido ⅓ do seu valor.

Estamos muito perto de encarar a pior parte da crise.

Se cuidem que logo mais poderemos falar de retomada.

Seguimos adiante.

Tudo passa.

Obs.: para quem quer entender como selecionamos empresas de qualidade, aqui está um tutorial simples.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.

TINO3: mesmo em recessão, o momento é da bolsa

Olá, como você vai?

Tenho visto algum crescimento de associações simplistas ultimamente, do tipo “Recessão = queda da bolsa”.

Não é bem assim.

Caso você discorde, peço humildemente para ler a argumentação até o final.

Primeiramente, a hora é de bolsa por uma questão de TINO (There Is No Option, ou não há outra opção).

Com Selic a 3,75 ao ano (e caindo), fica difícil destinar todo o seu patrimônio somente a renda fixa.

Alguma parcela disso precisa estar exposta a ativos de risco, sejam ações ou fundos imobiliários.

Segundo ponto, com recessão ou sem recessão, a atividade econômica pouca relação possui com a bolsa.

A realidade mostra isso.

Em dezembro de 2015 pairavam muitas incertezas no Brasil.

A bolsa não parava de cair, o dólar bateu recorde atrás de recorde, a Taxa Selic estava em 14,25 por cento ao ano, havia uma descrença que a equipe econômica de Dilma pudesse reformar as suas próprias medidas do primeiro governo e mal se falava em um eventual impeachment.

Naquele dezembro, o Boletim Focus projetava uma queda do PIB de 2 por cento para o ano seguinte, depois de já termos um ano de recessão em 2015.

Agora imagine que um ótimo economista, que acerta previsões sistematicamente acima da média dos economistas viesse para você naquele dezembro de 2015 e dissesse: “olha só, o Focus está subestimando essa crise. A projeção diz que a economia vai retrair 2 por cento em 2016, mas na verdade irá retrair 3,5”.

De fato, em 2016 a economia teve uma retração de 3,5 por cento, bem acima do esperado.

Se você soubesse que as coisas iriam ainda pior do que o esperado pela média do mercado, você investiria em ações naquele ano?

A lógica de que uma recessão é sinônimo de queda na bolsa diria que, escutando a previsão do economista vidente, você deveria ficar de fora.

Mas foi exatamente nesse ano de 2016 que a bolsa subiu quase 50 por cento, mesmo em meio a uma recessão de 3,5 por cento e Selic de 14,25 por cento.

Lembre-se: a bolsa vai para onde o lucro das empresas listadas forem.

O lucro das empresas listadas não tem absolutamente nada a ver com o PIB. Algumas empresas podem ter alguma relação, mas não é isso que determina o preço ou valor de uma ação.

A bolsa pode subir muito em uma recessão e pode cair muito em um períodos de prosperidade.

A bolsa também pode cair em uma recessão e subir muito em um período de prosperidade.

Já no início de 2016 o mercado comprou o impeachment de Dilma.

A partir disso tivemos algumas reformas aprovadas que vieram sincronizadas a queda das taxas de juros.

Não dá para ignorar esse processo de queda das taxas de juros como causa da alta da bolsa.

Mas o que puxou mesmo a bolsa foi o resultado das empresas (e esses não se deram exatamente pela mudança de viés do governo), até porque desde então o PIB de 2016 para cá cresceu a uma média de 0 por cento (queda de 3,5 por cento em 2016 e alta de 1 por cento em 2017, 18 e 19).

Os exemplo de empresas virando a chave ainda em 2015 são vários: ainda em 2015 as cias elétricas voltaram a operar com margens altas com o fim da MP do represamento das tarifas.

A Vale se recuperou muito por conta da retomada do preço do minério.

As locadoras de carro se beneficiaram muito fazendo parcerias com Uber, Cabify e apps.

A Magazine Luíza ignorou todo ruído político e expandiu e digitalizou a sua operação.

As Lojas Renner não parou de expandir o seu número de lojas.

Isso tudo tem relação com as empresas, não com o PIB, nem como o pânico/euforia do mercado ou com governos.

A situação atual é complicadíssima e não estou afirmando que a bolsa não possa cair mais.

Mas sinceramente, como você acha que estarão a Localiza, a Unidas e a Movida depois das locadoras menores terem quebrado?

Como estará a Magazine Luíza vendo outras varejistas menores quebrando ou em dificuldades?

A Multiplan e o Iguatemi estarão como quando shoppings menores saírem do mapa?

Todos vão sofrer no curto prazo porque o impacto geral foi grande, sem dúvida nenhuma.

Mas o terreno daqui para frente se torna imensamente favorável para os resultados das empresas listadas, com bem menos concorrência.

A hora é de comprar empresas qualidade.

O mercado é uma mola comprimida que está se soltando aos poucos.

Empresas líderes dos seus setores não só devem, como irão sofrer, mas o terreno de longo prazo ficou ainda mais limpo.

Acho importante também propor um cenário contrário: imagine se o Brasil estivesse crescendo a 6 por cento ao ano, com muitos empregos sendo gerados e muitas empresas abrindo.

Novas ideias seriam colocadas à prova. As líderes de mercado seriam espremidas, teriam que reduzir seus preços eventualmente para lidar com concorrência.

Teriam de contratar profissionais de alto nível, teriam de aumentar salários para poder ter os melhores profissionais do mercado, gastar mais em pesquisa, gastar mais qualificando pessoas, gastar mais tentando novas tecnologias.

Tudo isso reduziria o lucro das empresas, mesmo em um cenário maravilhoso.

Não dá pra dizer que a relação de bolsa e PIB é proporcional ou inversamente proporcional.

Simplesmente não há relação.

São dois processos totalmente independentes, que podem por alguns momentos convergirem e, por outros, divergirem.

Por último, há muita liquidez no mundo com todos os programas dos Bancos Centrais e governos.

No Brasil não é diferente.

Quando a pandemia passar, toda essa montanha de dinheiro que hoje as empresas e pessoas estão guardando em caixa terá que ir para algum lugar.

Será que irá para uma renda fixa?

Qual será o impacto de trilhões de reais entrando na bolsa por uma porta pequena?

Se a expansão do balanço dos Bancos Centrais não deve gerar uma inflação de preços, já que a demanda está retraída, por outro lado o excesso de liquidez que permeia a economia brasileira e mundial pode, sim, criar um inflação nos ativos de risco.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.