QAGR11: se beber, não case

Se beber nao case

Caro leitor,

O mercado tem o costume de dizer que o FII “xyz” é da gestora “abc”.

Isso dá a impressão de que a gestora é dona do fundo e que o cotista é mero passageiro deste veículo.

Nada mais equivocado do que isso.

O dono do fundo é o cotista.

O dinheiro é dele. Então o dono é ele.

O gestor é um mero prestador de serviço para o cotista.

Essa percepção de que o fundo pertence a gestora vem do fato de que quem toma a iniciativa de criar um fundo é a própria gestora.

Ela faz isso pois precisa criar mercado para si mesma.

É preciso ter para quem prestar o serviço. Caso contrário a gestora não terá razão de existir.

Vou dar um exemplo prático e bem atual, falando novamente da gestora do fundo QAGR11.

Só que agora com novos capítulos da novela.

Esse fundo não surgiu, da iniciativa de investidores que se juntaram para investir em silos e decidiram contratar a Quasar Asset Management.

Foi a gestora que tomou a iniciativa.

Ela montou uma tese de investimentos bonitinha, que versava sobre investir na carente infraestrutura de armazenagem de grãos no Brasil.

Prometeram boas aquisições, bons contratos, bom inquilino e boa remuneração.

Com isso, conseguiram convencer milhares de investidores a comprar cotas de um fundo que contrataria a própria gestora para colocar em prática a tal tese de investimentos.

Daí para frente a realidade foi muito diferente da promessa inicial.

A gestora não fez as aquisições prometidas, o principal cérebro por trás da tese se desligou da gestora, grande parte do dinheiro ficou parado no caixa do fundo e as poucas aquisições realizadas foram com contratos com a metade do prazo e com inquilinos nem de perto com a mesma solidez do prometido inicialmente.

Em bom português, a gestora do fundo não estava prestando um bom serviço.

Os verdadeiros donos do fundo, os cotistas, tomaram uma atitude.

Se juntaram num grupo que representava mais de 5% das cotas, e convocaram uma assembléia geral extraordinária.

Nessa assembléia serão votados alguns pedidos dos próprios cotistas.

O primeiro é amortizar 35 reais por cota. Ou seja, devolver esse dinheiro para os donos.

Faz todo sentido, afinal de contas se a gestora não está encontrando o que fazer com esse dinheiro, que devolva para os cotistas.

Esse é um duro golpe na gestora, que tem sua remuneração proporcional ao patrimônio total do fundo. Isso representa mais de um terço de redução.

As outras mudanças são no sentido de permitir que o fundo invista em imóveis urbanos industriais e logísticos.

Afinal, se está tão difícil assim encontrar imóveis relacionados ao agronegócio, então que se abra o leque para outras possibilidades.

Essa votação deverá ocorrer até o dia 14 de junho, mas ainda não teve data definida.

Toda essa história mostra e prova que os verdadeiros donos do fundo são os cotistas.

Você não é mero passageiro do seu FII.

Você também é dono dele.

Você até contrata um motorista para dirigi-lo.

Mas também o demite se ele não dirigir direito.

É o seu papel.

Claro que o caminho mais fácil é vender a cota e passar o problema adiante.

Apenas lembre-se que, no limite, o dono do FII é você.

Os FIIs recomendados na carteira Aluguel Inteligente estão sob a tutela de ótimos motoristas e você pode fazer uma viagem confortável na primeira classe.

Abraço.

Marcelo Fayh atua profissionalmente no mercado financeiro desde 2007. Começou como operador de Bolsa, ministrou cursos e palestras pela XP Educação e teve seu próprio escritório de investimentos. Antes de virar analista, atuou como assessor de operações de Fusões e Aquisições. Acredita que qualquer pessoa é capaz de melhorar sua qualidade de vida através de escolhas e investimentos inteligentes. Escreve para o TheCap na coluna Fundos a Fundos.

QAGR11: o primeiro fundo de silo da B3

qagr11 primeiro fundo de silos

Caro leitor,

Se você me acompanha, já deve ter ouvido eu dizer: “prefiro ficar de fora de bons negócios a ficar dentro de maus negócios”.

Digo isso pois já vi e vivi muita coisa no mercado de investimentos.

Hoje a cautela é algo que eu não abro mão.

Você também não deveria.

Afinal é o seu dinheiro que está em jogo.

Pouco meses atrás, ainda durante a euforia do mercado com os fundos imobiliários, surgiu uma novidade inovadora.

Um fundo estava vindo a mercado com uma proposta inédita: eles comprariam silos de armazenagem de grãos e os alugariam para grandes empresas do agronegócio.

Os silos são o galpão logístico do agronegócio.

Os produtores, plantam, colhem e estocam nestas grandes estruturas, enquanto esperam o melhor momento para vender sua mercadoria.

O Brasil, um grande produtor de grãos, tem uma carência enorme desse tipo de estrutura.

O Quasar Agro (QAGR11)​ veio para se tornar uma opção de investimento, segura e rentável ao mesmo tempo que resolvia (ou pelo menos ajudava a resolver) um gargalo e infraestrutura importante para o país.

Sua promessa durante o período de captação era muito boa: adquirir onze silos de grãos e imediatamente locar para o antigo dono, uma grande empresa do agronegócio.

Os contratos seriam atípicos e de vinte anos.

O que traria segurança jurídica e estabilidade a seus rendimentos.

​Parecia sensacional.

Mas eu alertava quem me perguntava para o fato de os imóveis serem ultra específicos e, portanto, de difícil recolocação no mercado para outro inquilino.

Ah, e também pelo fato de eles não dizerem quem seria o tal inquilino.

Daí me diziam: “ah, mas isso é problema para daqui a vinte anos”.

Não precisou passar nem três meses para que a cautela se justificasse.

A situação atual não passa nem perto daquilo que foi vendido.

O fundo não comprou nenhum dos imóveis que tinha prometido durante a oferta.

No final de fevereiro o fundo finalmente realizou sua primeira aquisição de quatro centros de recebimento de grãos, em um contrato de dez anos.

Com isso o fundo conseguiu alocar, até agora, apenas 89 milhões dos 484 milhões de reais que possui.

Nesse meio tempo houve a saída de membros importantes da gestora do fundo.

Você comprou ingresso para assistir o jogo dos titulares e na hora entrou em campo um time misto.

Aqueles 11 imóveis com contrato de vinte anos não vão mais acontecer.

A história está sendo bem diferente agora.

O fundo está tentando amenizar a situação, com a gestora decidindo, de forma “voluntária”, abrir mão da sua parcela da taxa de administração até que o fundo atinja a alocação de pelo menos 90 por cento do seu patrimônio.

Enfim, a iniciativa do fundo de atuar neste segmento da economia é louvável.

O Brasil de fato precisa dessa iniciativa.

Torço que ele tenha um futuro próspero e que cresça muito. Mas isso eu digo com o chapéu de brasileiro que torce pelo bem do país.

Com o chapéu de investidor a história é diferente.

O fundo vai ter que se redimir e provar o seu valor.

Até lá eu só observo e torço por ele. Qualquer hora ele pode vir a compor a carteira do Aluguel Inteligente​.

Abraço.

Marcelo Fayh atua profissionalmente no mercado financeiro desde 2007. Começou como operador de Bolsa, ministrou cursos e palestras pela XP Educação e teve seu próprio escritório de investimentos. Antes de virar analista, atuou como assessor de operações de Fusões e Aquisições. Acredita que qualquer pessoa é capaz de melhorar sua qualidade de vida através de escolhas e investimentos inteligentes. Escreve para o TheCap na coluna Fundos a Fundos.