TINO3: mesmo em recessão, o momento é da bolsa

TINO3: mesmo em recessão, o momento é da bolsa
Martin Kirsten

Martin Kirsten

Sócio do GuiaInvest. Mestre em Economia pela UFRGS e assina o Recado do Economista.

Olá, como você vai?

Tenho visto algum crescimento de associações simplistas ultimamente, do tipo “Recessão = queda da bolsa”.

Não é bem assim.

Caso você discorde, peço humildemente para ler a argumentação até o final.

Primeiramente, a hora é de bolsa por uma questão de TINO (There Is No Option, ou não há outra opção).

Com Selic a 3,75 ao ano (e caindo), fica difícil destinar todo o seu patrimônio somente a renda fixa.

Alguma parcela disso precisa estar exposta a ativos de risco, sejam ações ou fundos imobiliários.

Segundo ponto, com recessão ou sem recessão, a atividade econômica pouca relação possui com a bolsa.

A realidade mostra isso.

Em dezembro de 2015 pairavam muitas incertezas no Brasil.

A bolsa não parava de cair, o dólar bateu recorde atrás de recorde, a Taxa Selic estava em 14,25 por cento ao ano, havia uma descrença que a equipe econômica de Dilma pudesse reformar as suas próprias medidas do primeiro governo e mal se falava em um eventual impeachment.

Naquele dezembro, o Boletim Focus projetava uma queda do PIB de 2 por cento para o ano seguinte, depois de já termos um ano de recessão em 2015.

Agora imagine que um ótimo economista, que acerta previsões sistematicamente acima da média dos economistas viesse para você naquele dezembro de 2015 e dissesse: “olha só, o Focus está subestimando essa crise. A projeção diz que a economia vai retrair 2 por cento em 2016, mas na verdade irá retrair 3,5”.

De fato, em 2016 a economia teve uma retração de 3,5 por cento, bem acima do esperado.

Se você soubesse que as coisas iriam ainda pior do que o esperado pela média do mercado, você investiria em ações naquele ano?

A lógica de que uma recessão é sinônimo de queda na bolsa diria que, escutando a previsão do economista vidente, você deveria ficar de fora.

Mas foi exatamente nesse ano de 2016 que a bolsa subiu quase 50 por cento, mesmo em meio a uma recessão de 3,5 por cento e Selic de 14,25 por cento.

Lembre-se: a bolsa vai para onde o lucro das empresas listadas forem.

O lucro das empresas listadas não tem absolutamente nada a ver com o PIB. Algumas empresas podem ter alguma relação, mas não é isso que determina o preço ou valor de uma ação.

A bolsa pode subir muito em uma recessão e pode cair muito em um períodos de prosperidade.

A bolsa também pode cair em uma recessão e subir muito em um período de prosperidade.

Já no início de 2016 o mercado comprou o impeachment de Dilma.

A partir disso tivemos algumas reformas aprovadas que vieram sincronizadas a queda das taxas de juros.

Não dá para ignorar esse processo de queda das taxas de juros como causa da alta da bolsa.

Mas o que puxou mesmo a bolsa foi o resultado das empresas (e esses não se deram exatamente pela mudança de viés do governo), até porque desde então o PIB de 2016 para cá cresceu a uma média de 0 por cento (queda de 3,5 por cento em 2016 e alta de 1 por cento em 2017, 18 e 19).

Os exemplo de empresas virando a chave ainda em 2015 são vários: ainda em 2015 as cias elétricas voltaram a operar com margens altas com o fim da MP do represamento das tarifas.

A Vale se recuperou muito por conta da retomada do preço do minério.

As locadoras de carro se beneficiaram muito fazendo parcerias com Uber, Cabify e apps.

A Magazine Luíza ignorou todo ruído político e expandiu e digitalizou a sua operação.

As Lojas Renner não parou de expandir o seu número de lojas.

Isso tudo tem relação com as empresas, não com o PIB, nem como o pânico/euforia do mercado ou com governos.

A situação atual é complicadíssima e não estou afirmando que a bolsa não possa cair mais.

Mas sinceramente, como você acha que estarão a Localiza, a Unidas e a Movida depois das locadoras menores terem quebrado?

Como estará a Magazine Luíza vendo outras varejistas menores quebrando ou em dificuldades?

A Multiplan e o Iguatemi estarão como quando shoppings menores saírem do mapa?

Todos vão sofrer no curto prazo porque o impacto geral foi grande, sem dúvida nenhuma.

Mas o terreno daqui para frente se torna imensamente favorável para os resultados das empresas listadas, com bem menos concorrência.

A hora é de comprar empresas qualidade.

O mercado é uma mola comprimida que está se soltando aos poucos.

Empresas líderes dos seus setores não só devem, como irão sofrer, mas o terreno de longo prazo ficou ainda mais limpo.

Acho importante também propor um cenário contrário: imagine se o Brasil estivesse crescendo a 6 por cento ao ano, com muitos empregos sendo gerados e muitas empresas abrindo.

Novas ideias seriam colocadas à prova. As líderes de mercado seriam espremidas, teriam que reduzir seus preços eventualmente para lidar com concorrência.

Teriam de contratar profissionais de alto nível, teriam de aumentar salários para poder ter os melhores profissionais do mercado, gastar mais em pesquisa, gastar mais qualificando pessoas, gastar mais tentando novas tecnologias.

Tudo isso reduziria o lucro das empresas, mesmo em um cenário maravilhoso.

Não dá pra dizer que a relação de bolsa e PIB é proporcional ou inversamente proporcional.

Simplesmente não há relação.

São dois processos totalmente independentes, que podem por alguns momentos convergirem e, por outros, divergirem.

Por último, há muita liquidez no mundo com todos os programas dos Bancos Centrais e governos.

No Brasil não é diferente.

Quando a pandemia passar, toda essa montanha de dinheiro que hoje as empresas e pessoas estão guardando em caixa terá que ir para algum lugar.

Será que irá para uma renda fixa?

Qual será o impacto de trilhões de reais entrando na bolsa por uma porta pequena?

Se a expansão do balanço dos Bancos Centrais não deve gerar uma inflação de preços, já que a demanda está retraída, por outro lado o excesso de liquidez que permeia a economia brasileira e mundial pode, sim, criar um inflação nos ativos de risco.

Martin faz parte da equipe do GuiaInvest desde início de 2017. É Mestre e Bacharel em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para a TheCap na coluna Contra a Corrente.

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