Será que vale a pena investir na poupança?

Andre Fogaca

Andre Fogaca

Sócio-fundador do GuiaInvest e formado em Administração e pós-graduado em Economia pela UFRGS.
vale a pena investir na poupança

Ela é a queridinha dos brasileiros. É fácil de investir e é acessível a todos. Mas será que vale a pena investir na poupança?

É difícil de acreditar, mas houve uma época em que as finanças no Brasil eram uma terra de ninguém. O público sofria com os juros altos e os agiotas ofereciam livremente seus serviços em toda a esquina, fazendo com que principalmente a população das classes mais baixas sofresse em uma espiral de débito. Ainda bem que, graças a D. Pedro II, hoje as coisas são diferentes.

Vamos imaginar o contexto. Entre 1850 e 1860 houve uma explosão de empreendedorismo no Brasil. Éramos, segundo projeções, 7.256.000 brasileiros. Pouco mais que um Rio de Janeiro de hoje. Esse pessoal arregaçou as mangas e criou 70 fábricas, 20 empresas de navegação a vapor, oito de estradas de ferro. E mais 14 bancos e 23 empresas de seguros. Essa onda de surgimento de negócios aconteceu, em parte, porque o tráfego de escravos era proibido, então, recorreu-se aos imigrantes. E imigrantes livres não ficam na fazenda, na terra, caso vislumbrem uma chance de vida melhor nas cidades.

E as cidades brasileiras passaram a receber mais gente, alguns querendo consumir e outros querendo vender e produzir para os primeiros. E todos precisavam de bancos, que não eram sujeitos a muitas regras, cobravam o que queriam de juros, estrangulavam a economia nascente, levavam muitos à falência.

Isso mudou um pouco com o decreto de D. Pedro II de 1861. Com uma canetada só, ele criou a Caixa Econômica da Corte, com o intuito de atender a população mais carente. A Caixa, na época, apresentava um modelo de investimento único, também criado no mesmo decreto, que rendia 6% ao ano e tinha um teto máximo de aplicação. E, mais importante de tudo, o investimento tinha a garantia da Coroa: a Caixa não iria quebrar e ninguém iria perder seu dinheiro, palavra de imperador. Deu muito certo: até mesmo escravos colocavam lá suas moedinhas, na esperança de comprar sua liberdade. Oficialmente, o governo, assim, estimulava o hábito de poupar no Brasil. Extraoficialmente, era mais uma maneira de reforçar o tesouro naqueles conturbados tempos. Hoje, a poupança… bom, como dizem, quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas.

E a Caderneta de Poupança, mudando as regras um pouco aqui e ali, está presente até hoje. Houve época em que os juros eram depositados a cada três meses; hoje, para pessoas físicas, é mensal. Em 1968, a Poupança foi turbinada com o advento da correção monetária, remédio que mais tarde acabou alimentando a doença chamada inflação. Por sua simplicidade e disponibilidade, a Caderneta de Poupança caiu no gosto do brasileiro. Houve épocas em que todos tinham uma. E, em 1990, graças ao Plano Collor, todo mundo tinha uma mesmo, quer queira ou quer não: o confisco de todo investimento acima de determinado patamar foi parar em uma poupança a qual o brasileiro só teve acesso após seis meses.

Ainda assim, a Poupança sobreviveu. Por muito tempo, graças, em parte, à publicidade bancária, que abusava de imagens coloridas e alegres para atrair a atenção das crianças, a poupança foi considerada o primeiro investimento infantil. Era um presente comum dado a recém-nascidos, junto com fraldas e bichinhos de pelúcia. Foi a grande educadora financeira de parte dos brasileiros. Tem um dinheirinho sobrando? Vamos colocar na poupança. E assim, aquelas magras notinhas, que seriam capazes de garantir um mês de gibis e doces, desapareciam em algo meio confuso e imaterial, chamado “banco” e “futuro”.

Hoje, a situação é diferente. O Brasil é mais educado financeiramente, e muitos pais e avós buscam alternativas para garantir um futuro melhor para os filhos.

A própria poupança teve suas regras mudadas, em 2012. A rentabilidade de sempre, 6% ao ano, ganhou um gatilho que, a rigor, facilitaria a queda de juros. Sempre que a Selic for igual ou menor que 8,5%, a poupança passa a render 70% da Selic mais TR (Taxa referencial).

Já expliquei aqui que Selic é a base que rege o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), taxa pela qual bancos emprestam dinheiro uns aos outros, e é o referencial principal para investimentos. Selic e CDI andam de mãos dadas, e formam o teto dos principais investimentos disponíveis. Quando seu gerente diz que tal investimento rende 92% da Selic/CDI, significa que eles irão pagar para você o equivalente a 92% do que ganham emprestando dinheiro para outros bancos. E aí fica um aviso: se um banco oferecer um ganho muito acima de 100% dessas taxas, desconfie. 150% da Selic/CDI significa que o banco pagaria a você 50% a mais do que ele próprio ganha. Ou seja, está perdendo dinheiro, rápido. E banco que perde dinheiro quebra.

A poupança não é, nem de longe, o melhor investimento e, desde 2012, não tem nem seu tradicional 6% ao ano garantido. Não é de se espantar que, nos últimos anos, frequentemente os recursos aplicados nela apresentam resultados negativos: muito mais gente tira dinheiro do que aplica na velha Caderneta. Somente no primeiro semestre de 2016, 42,6 bilhões de reais deixaram a Poupança. Em janeiro de 2017, os brasileiros tiraram 10,7 bilhões de reais a mais do que colocaram nesse investimento, fazendo dele o terceiro pior mês em fuga de recursos desde que o Banco Central começou a medir essa estatística, em 1995.

Mas, quanto ao grande chamariz da poupança, sua segurança a toda prova. É realmente verdade a ponde de ser a resposta ao nosso questionamento se vale a pena investir na poupança?

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Bem, sim e não.

A Poupança é garantida pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), instrumento interbancário que garante a todo investidor que, em caso de quebra do banco, terá pelo menos parte de seu dinheiro de volta. Sim, o FGC tem um limite, de R$ 250 mil por CPF, por banco. E aí, entra tudo: conta corrente, fundos… e poupança. Se você tem mais do que 250 mil poupados, não há garantias de que você verá esse excedente em caso de quebra de bancos. A garantia extra da barba do imperador foi-se há muito tempo. A poupança é segura, sim, da mesma forma que qualquer investimento bancário é seguro. Não há primazias nem cláusulas especiais.

Mas pelo menos, sabemos que a poupança é isenta de Imposto de Renda, certo?

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De novo, sim e não.

Os rendimentos em Caderneta de Poupança são, sim, isentos de IR. Porém, se em um ano você lucrar mais do que R$ 40 mil em investimentos isentos – poupança incluída – esse excedente paga imposto. Então, até esse limite, fique tranquilo. Mas se a poupança não é o melhor investimento em rendimento, nem tem uma segurança especial, que vantagem ela tem?

Liquidez. E simplicidade.

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Dificilmente você vai encontrar outro investimento que esteja à sua disposição no mesmo dia que você precisar. Depósitos e saques da poupança são automáticos, saem e caem na sua conta quando você termina de apertar as teclas no seu computador ou terminal bancário. A maioria dos outros investimentos exige três dias para resgates não-programados. E, se alguém importante para você está no hospital, se você bateu o carro, se acontecer alguma emergência, você muitas vezes não pode esperar três dias.

A liquidez é ajudada pela simplicidade. Não há nada mais simples que aplicar na poupança. Sem contratos para assinar, sem aporte mínimo, sem burocracia. A Poupança pode representar pouco em se tratando de renda passiva, mas é o pouco que está sempre ali, à sua disposição, quando precisar. Talvez seja por isso que ela seja tão querida pelos brasileiros. É o dinheiro simples, é o feijão com arroz de todo dia. Você não precisa pensar, não precisa calcular, não precisa nada para ter a Poupança, e sabe que ela estará sempre lá. Precisou, usou.

Por isso, ela é recomendada para alguns fins:

  • Contas do mês – Que tal depositar em uma poupança o equivalente ao que você gasta todo o mês em contas? Assim, na hora de pagar, você ganhará um juro modesto, mas que se beneficia da regra de todo juro composto.
  • Fundo de emergência – Equivalente a quatro a seis meses de despesas, o fundo de emergência é um dinheiro que você não mexe, que não se importa com grandes ganhos, mas que está lá para lhe socorrer caso precise. Esperamos que nunca precise, mas é bom ter a possibilidade.
  • Dinheirinho extra – A poupança não tem aporte mínimo, mas outros investimentos têm. Que tal colocar na poupança aqueles R$ 100, R$ 50 que sobram no mês para ganhar um pequeno rendimento até ter o suficiente para aplicar em algo mais vantajoso?

Para todo o resto, não existem vantagens na poupança, até porque o resto é formado de investimentos planejados – você sabe que destino deve dar aquele dinheiro, o tempo que ficará aplicado e quanto mais ou menos quer que ele renda.

Mas se você tiver pouco dinheiro, não pense que sua única opção é a poupança. Existem outras opções que apresentam vantagens e desvantagens em relação à poupança:

Tesouro Direto Selic – Título Público emitido pelo governo. Basicamente, você está emprestando dinheiro para Brasília, que lhe promete pagar conforme a variação da taxa Selic depois de determinado tempo.

Vantagem – Rendimento muito maior. Como vimos acima, a Poupança é limitada, conforme a situação, a 70% da Selic.

Desvantagem – Liquidez baixíssima. Se você precisar de dinheiro antes que o prazo do título se esgote, você precisará vendê-lo por uma fração de seu valor, o que raramente compensa.

CDB Outro título, mas em vez de emprestar para o governo, você empresta para o banco de sua preferência. O rendimento tende a ser menor que o do Tesouro Direto, e você também perde muito em caso de resgate antecipado, mas os recursos tendem a estar em sua conta um pouco mais rápido que no caso do Tesouro Direto.

Vantagem – Após o prazo mínimo de aplicação, a rentabilidade é diária.

Desvantagem – Ao contrário da poupança, os ganhos no CDB são tributáveis no Imposto de Renda. Alguns bancos oferecem certas vantagens, como isenção de algumas taxas, para compensar. Fale com seu gerente.

LCI e LCA – Títulos de investimento em imóveis ou agricultura.

Vantagem – São isentos de Imposto de Renda.

Desvantagens – Bancos tendem a exigir um aporte inicial alto para tais investimentos, e ter um período de investimento mínimo alto, tornando sua liquidez tão precária como a do Tesouro Direto. Se você está interessado em investir em um desses segmentos da economia, se tem um amplo conhecimento sobre eles, é mais indicado comprar ações de empresas sólidas, ou investir no índice da área na Bovespa.

Se você controlar o seu dinheiro, vai perceber que até mesmo a velha Poupança pode servir para seus propósitos – não irá lhe ajudar muito a construir sua renda passiva, mas será seu colchão de segurança. Pense nela como um estepe: não lhe ajuda diretamente na estrada, você espera não precisar, mas é bom saber que está lá.

Você está em busca de opções mais vantajosas do que a poupança para investir?

Recomendo fortemente que assista a essa videoaula que preparei justamente para ensiná-lo a investir com pouco dinheiro. Feijão e arroz são quase unanimidade no Brasil, mas quando falamos dos seus investimentos, dos seus sonhos e do seu futuro, é preciso ir além do básico e sair do piloto automático.

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