O que esperar de 2026 (sem romantizar o mercado)
1) Juros globais: cortes graduais, mas sem volta do “dinheiro grátis”
Em 2026, o cenário mais provável lá fora é de queda de juros em ritmo lento, totalmente dependente de dados e isso muda o jogo.
O Fed, por exemplo, segue projetando um caminho de redução bem comedido: a mediana para o fim de 2026 apareceu em 3,4% nas projeções de dezembro/2025.
Tradução: não dá pra montar carteira como se a taxa fosse voltar a “zero” só porque o mercado quer.
2) O risco mais ignorado: inflação voltando pela porta dos fundos (IA + energia + CAPEX)
O mercado entrou em 2026 animado com IA, mas tem um elefante na sala: o investimento pesado em data centers, chips e energia pode pressionar preços e custos e, se isso aparecer na inflação, banco central para de cortar juros (ou fica mais duro).
A pegadinha aqui é cruel: a mesma tese que empurra ações (crescimento/IA) pode ser a tese que tira o chão (inflação/juros).
3) Liquidez global: Japão virando o volante (e isso mexe com o resto do mundo)
O Japão está saindo do ultra-estímulo, e o Banco do Japão tem repetido que pretende continuar elevando juros se economia e preços vierem conforme o esperado; a própria Reuters reportou isso, lembrando que o BOJ já elevou a taxa para 0,75% em dezembro/2025.
Quando um player desse tamanho muda de regime, o impacto costuma vir em forma de volatilidade e reprecificação de risco, especialmente em momentos de estresse.
4) Recessão: não é cenário-base, mas também não é “impossível”
O erro clássico é operar 2026 como se desaceleração forte fosse ficção.
O mundo pode entregar um “soft landing”, mas o caminho pode ser irregular.
E, num ano em que inflação pode teimar e juros podem demorar a cair, o risco de tropeço aumenta.
Aqui vale uma regra prática: se a sua carteira só funciona num cenário “perfeito”, ela não é carteira, é aposta.
Brasil em 2026 (a variável é credibilidade)
1) Selic: alta agora, cortes depois e o “depois” depende de confiança
O Copom manteve a Selic em 15% e segue reforçando a linha de política restritiva por um período mais prolongado.
Isso coloca o investidor num dilema bom e perigoso ao mesmo tempo: o carrego é ótimo, mas a tentação de antecipar demais o ciclo pode custar caro se inflação/fiscal piorarem.
2) Fiscal + eleição: o prêmio de risco vai oscilar com o humor político
2026 é ano em que o Brasil vira um “ativo de credibilidade”.
Se o fiscal ficar sob controle, abre espaço para reprecificação (juros longos caindo, múltiplos respirando).
Se virar “vamos empurrando”, o mercado cobra no automático: câmbio, curva, risco-país e a conta chega sem pedir licença.
3) Crescimento mais moderado: o mercado vai separar adultos de crianças
O Banco Central projeta desaceleração do PIB: depois de 2,3% em 2025, 1,6% em 2026.
Em ambiente de crescimento menor, fica mais fácil ver quem tem margem, caixa e governança e quem só estava “surfando o ciclo”.
O que isso muda na carteira (onde o dinheiro de verdade se decide)
1) Ações: 2026 tende a ser ano de dispersão, não de “índice”
O mercado deve ficar mais seletivo.
Ações de empresas com geração de caixa, balanço limpo e poder de repasse tendem a sofrer menos e capturar melhor as oportunidades.
Já empresas que dependem de “refinanciamento fácil” e crescimento sem atrito podem sentir o custo de capital no osso.
E se a inflação reacender por conta do ciclo de investimentos em IA/energia, o ajuste costuma vir primeiro no múltiplo, depois na narrativa.
2) Renda fixa: oportunidade grande, mas não é “vale tudo”
Com Selic alta, o carrego é poderoso.
Mas 2026 vai exigir técnica: escolher vencimentos, indexadores e diversificação de risco com disciplina, porque a mesma curva que te dá oportunidade também te pune quando você erra.
3) Crédito/alternativos: cuidado com o risco escondido
Private credit e estruturas ilíquidas podem continuar interessantes, mas 2026 tende a ser um ano em que o mercado discute mais cobertura de juros, fluxo de caixa e refinanciamentos.
A Reuters chamou atenção para pressão em crédito privado, com indicadores de caixa/interest coverage mais fracos em parte dos tomadores e risco de ciclo virar.
Tradução: iliquidez é prêmio… até o dia em que deixa de ser.
Checklist 2026
Pare de tratar 2026 como continuação de 2025.
Juros e inflação voltaram a mandar no valuation.
Qualidade de balanço vira alfa.
Em custo de capital alto, dívida ruim coloca tudo a perder, caixa vira vantagem competitiva.
Diversificação geográfica é indispensável.
Com Japão normalizando e bancos centrais ainda sensíveis à inflação, choques de volatilidade ficam mais prováveis.
O investidor comum quer uma resposta única: “vai cair juros?” “vai subir bolsa?” “dólar vai pra onde?”.
O problema é que o mercado não funciona como pergunta de prova, ele funciona como choque de cenário.
E é por isso que imaginar cenários não é “exercício acadêmico”: é o jeito mais prático de antecipar impacto e evitar erro grande.
Quando você monta uma carteira apostando em uma narrativa só, você está implicitamente dizendo: “se o mundo não confirmar minha história, eu aceito pagar a conta”.
E 2026 tem cara de ano em que o mundo vai testar convicções.
Por isso, o que determina sucesso não é acertar o cenário perfeito, mas ter uma carteira que sobrevive bem no cenário ruim e participa bem no cenário bom.
Pensar por regimes é exatamente isso: desenhar, antes do mercado te obrigar, como a carteira reage se os juros caírem devagar, se a inflação reaparecer ou se a economia desacelerar mais do que o consenso espera.
Porque o impacto não é igual.
Juros mexem com valuation e duration, inflação mexe com margens e juros reais, desaceleração mexe com lucros e crédito.
Se você não imagina esses caminhos, você só descobre onde está exposto quando o estrago já aconteceu e aí o “rebalanceamento” não vai te salvar.
No fim, gestão de risco é o que separa patrimônio que cresce de patrimônio que só alterna entre euforia e arrependimento.
Retorno é consequência. Risco é projeto.
A carteira precisa continuar “de pé” em qualquer regime e, se possível, sem você precisar virar refém de um único desfecho do mundo.
2026 deve premiar processo.
O investidor que “casa com cenário” costuma acabar divorciado do resultado.
Forte abraço!
Eduardo Voglino






