Carnaval é aquele momento em que o Brasil inteiro aceita uma verdade simples: nem toda fantasia é pra durar até quarta-feira.
Algumas são só pra foto e outras custam caro quando você descobre o que tinha por baixo.
COE funciona parecido.
Ele chega com glitter e promessa de “capital protegido”, te vende a sensação de que você vai curtir a alta sem pagar o preço da queda… e muita gente só percebe depois que a proteção tem horário pra começar, o “sem taxa” tem truque de engenharia, e o ganho vem com corda curta (teto, barreira, spread, escolhe seu confete).
Antes de decidir se COE é “bom” ou “ruim”, vale fazer a pergunta que separa folia de armadilha: em quais cenários eu ganho, quanto eu ganho, e até onde?
O detalhe inconveniente é que, na maioria dos COEs, o airbag só infla no vencimento, não tem FGC, e o custo do “conforto” não aparece como taxa, aparece como corredores, tetos, barreiras e spreads.
E aí a pessoa descobre tarde demais que “proteção” era uma palavra emocional, não um contrato de garantia.
Isso ajuda a explicar por que COE virou um dos produtos mais empurrados do sistema.
Não é pequeno: no Boletim Diário do Mercado da B3, o estoque de COEs aparece na casa de R$ 99,2 bilhões em meados de janeiro de 2026.
Agora, antes de cair no binário “COE é bom ou ruim”, vale encarar três verdades simples, daquelas que mudam sua leitura do produto na hora:
A primeira: proteção de capital não é FGC.
COE é risco de crédito do emissor (quem possui COE da Ambipar está pagando esse preço na prática).
Se o emissor não honra, não existe “100% de volta” por mágica.
A segunda: a proteção quase sempre vale no vencimento.
Antes disso, você está na mão da marcação a mercado e do preço de recompra (que costuma ser um universo onde “liquidez” e “preço justo” não andam necessariamente juntos).
A terceira: o custo raramente vem com etiqueta.
Ele mora no desenho, exatamente onde a maioria não olha.
E aqui entra a parte que separa “produto sofisticado” de “produto caro com marketing sofisticado”: a anatomia real de um COE “capital protegido”.
Na prática, ele é um pacote indivisível com duas pernas claras e uma terceira que quase nunca é dita em voz alta:
1) A perna da renda fixa: um pedaço grande do seu dinheiro compra um título que tenta garantir que, lá no vencimento, o principal volte (muitas vezes 100% nominal).
2) A perna dos derivativos: o resto vira uma estrutura de opções atrelada a índice, ações, dólar, commodities etc. É daqui que nasce o “upside” do folder.
3) A perna escondida: para pagar a brincadeira e ainda “prometer” participação alta, você normalmente está vendendo alguma coisa sem perceber, o seu upside (teto/cap), ou aceitando strikes/condições piores (barreiras), ou ambos.
Se você entende isso, o COE para de ser “uma caixinha” e vira o que ele é: um payoff.
E payoff não se discute com opinião, se discute com cenário.
Um exemplo didático (e bem comum): Ibovespa com participação alta e teto
Pensa num COE de 2 anos, “capital protegido” no vencimento, com 140% da alta do Ibovespa, mas com teto de ganho de +28%.
Traduzindo: se o Ibovespa subir 20% em 2 anos, você ganha 28% (1,4 × 20%). Se subir 30%, 40%, 60%… você continua travado em 28%.
Aí o payoff fica mais ou menos assim (exemplo em R$ 100 mil, só para ficar concreto):
- Ibovespa -20% → COE volta R$ 100.000 no vencimento (nominal)
- Ibovespa 0% → COE volta R$ 100.000
- Ibovespa +10% → COE paga R$ 114.000
- Ibovespa +20% → COE paga R$ 128.000 (bateu o teto)
- Ibovespa +30% → COE paga R$ 128.000 (travado)
- Ibovespa +40% → COE paga R$ 128.000 (travado)
Percebe o “corredor estreito” que você comprou?
- Se o mercado andar um pouco, o COE pode parecer genial.
- Se o mercado andar de verdade, você fica para trás, porque você vendeu o upside para financiar a “participação alta”.
- Se o mercado não andar, você fica no principal nominal e tende a perder para qualquer renda fixa decente no período (e isso, num país com Selic frequentemente relevante, não é um detalhe).
E é aqui que mora o truque psicológico: o COE é desenhado para ganhar no intervalo em que o investidor se convence de que fez uma escolha inteligente e perder nos extremos (alta forte ou tempo sem performance), que é exatamente onde o patrimônio costuma ser decidido.
“Tá, mas de onde vem o dinheiro do 140%?”
De três fontes clássicas, normalmente combinadas:
- Teto (cap): você abre mão do ganho grande para financiar a promessa bonita.
- Barreiras/strikes desfavoráveis: sua participação “começa” tarde, ou só existe se certas condições forem cumpridas.
- Preço interno e spread: o emissor monta o hedge e precifica o pacote com margem e o investidor não enxerga bid/ask, volatilidade implícita, nem a gordura embutida.
Então quando alguém diz “não tem taxa”, pode até ser verdade no sentido burocrático (não existe uma linha escrita “taxa”). Mas economicamente, a taxa está lá: só que disfarçada em engenharia de preço.
O elefante na sala: incentivo comercial
COE costuma ser empurrado porque ele junta três ingredientes perfeitos para a distribuição:
- remunera bem quem vende,
- é complexo o suficiente para o cliente não conseguir precificar,
- e “capital protegido” dá um tipo de paz emocional que vende sozinho.
A ANBIMA vem endurecendo regras para aumentar transparência em materiais e publicidade, e também vem criando regras específicas de enquadramento/suitability para modalidades de COE (inclusive COE de crédito). Isso é avanço institucional.
Mas não se iluda: o custo continua morando no desenho e o desenho continua sendo onde pouca gente olha.
Quando um COE faz sentido
Pode fazer sentido” em três situações “honestas”:
- Você quer um payoff muito específico e aceita conscientemente o trade-off (por exemplo: “quero alta moderada, topo perder a alta grande”).
- Você quer o wrapper operacional (não opera opções, não quer rotina, não tem acesso).
- Você está fazendo gestão de risco (especialmente câmbio) com desenho claro, porque tem passivo real, não porque quer “investimento mágico”.
O problema é que a maior parte do varejo não compra isso. Compra sensação.
Um mini-teste prático (para não cair no roteiro do vendedor)
Antes de aceitar qualquer COE (recomenda que não aceite nenhum), peça para te mandarem por escrito:
- Qual é o teto (cap) e/ou a barreira?
- Em quais cenários eu não ganho nada, em quais eu ganho pouco, e em quais eu fico travado?
- Qual é a remuneração de distribuição (em R$ e em % ao ano)?
- Se eu precisar sair antes, como é formado o preço de recompra?
A pergunta certa não é “COE é ruim?”.
A pergunta certa é: “eu aceito pagar (via payoff) para viver dentro desse corredor de cenários?”
Porque, no fim, a matemática responde, sempre.
Forte abraço!
Eduardo Voglino
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