Imagine a cena. Estamos em uma sala de reuniões luxuosa em meados dos anos 70. De um lado da mesa, altos funcionários do governo britânico; do outro, seus homólogos franceses. O clima é tenso.
Sobre a mesa estão relatórios financeiros desastrosos.
Todos ali sabem da verdade nua e crua: o projeto do avião supersônico que eles estão construindo é um fracasso comercial absoluto. Ele queima combustível demais, faz barulho demais e transporta passageiros de menos.
As projeções mostram que a operação nunca será lucrativa. A lógica econômica grita para que o projeto seja cancelado imediatamente.
Mas então, alguém levanta a mão e diz a frase que selaria o destino de bilhões de dólares dos contribuintes:
“Mas nós já gastamos tanto dinheiro até aqui… não podemos parar agora.”
Eles continuaram. Injetaram mais fortunas, construíram os aviões e operaram com prejuízo por décadas, apenas para não admitir que o dinheiro gasto anteriormente já estava perdido.
Essa história é o exemplo clássico do que chamamos de Falácia dos Custos Afundados.
Eu começo com essa história grandiosa porque é fácil olhar para burocratas e governos e apontar o dedo. É fácil ver o erro no quintal do vizinho.
Mas eu preciso te fazer uma pergunta honesta hoje.
Quantas vezes você já fez exatamente a mesma coisa com o seu dinheiro?
O ingresso de cinema e a sua carteira
Talvez em menor escala, todos nós caímos nessa armadilha.
Pense naquele momento em que você vai ao cinema. Você compra o ingresso, compra a pipoca e senta na poltrona. Meia hora depois, você percebe que o filme é horrível.
O roteiro não faz sentido, a atuação é péssima e você está entediado.
A decisão racional seria levantar e ir embora. Afinal, o dinheiro do ingresso e da pipoca já foi gasto. Ele é um custo afundado. Ele não volta para o seu bolso se você ficar até o final.
Ao escolher ficar, você não está “aproveitando o dinheiro”. Você está apenas adicionando um novo custo: o desperdício do seu tempo e o sofrimento do tédio. Você está pagando duas vezes pelo erro.
Daniel Kahneman, em seu brilhante livro Rápido e Devagar, explora como a nossa aversão à perda nos faz tomar decisões irracionais como essa. Nós odiamos a sensação de desperdício, então persistimos no erro para tentar validar o gasto passado.
No mundo dos investimentos, isso é devastador.
Eu vejo isso acontecer com frequência na consultoria. O investidor compra uma ação por 100 reais. A empresa divulga resultados ruins, o cenário muda, os fundamentos se deterioram e a ação cai para 70 reais.
Quando pergunto por que ele ainda mantém aquele ativo na carteira, a resposta é quase sempre emocional:
“Ah, André, eu não posso vender agora. Tenho que esperar voltar aos 100 para empatar.”
Isso é jogar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim.
O mercado não sabe quanto você pagou
Essa é uma das verdades mais libertadoras que aprendi em mais de duas décadas de mercado: a ação não sabe que você a comprou por 100 reais. O mercado não tem memória do seu preço de entrada e não tem nenhuma obrigação moral de devolver o seu capital.
O dinheiro que você perdeu nessa desvalorização é, tecnicamente, um custo afundado. Ele já foi.
A única pergunta que importa, a única pergunta racional que um investidor sério deve fazer a si mesmo, é baseada na perspectiva futura:
“Se eu tivesse hoje o valor equivalente a essas ações em dinheiro vivo na minha mão, eu compraria essas mesmas ações novamente?”
Se a resposta for “não”, então por que você continua com elas?
Manter um investimento ruim apenas para evitar a dor de realizar o prejuízo é a versão financeira de continuar sentado no cinema assistindo a um filme terrível. Você está ocupando um espaço na sua carteira que poderia estar alocado em um ativo de qualidade, com potencial real de crescimento e geração de renda.
Eu sei que falar é fácil. Fazer é difícil.
Existe um componente psicológico muito forte aqui. Vender com prejuízo significa admitir um erro. E o nosso ego detesta admitir erros. Nós preferimos a esperança irracional de um “milagre” que faça a ação subir, do que a dor aguda de aceitar que aquela análise estava errada.
É como o jogador de pôquer que continua apostando em uma mão perdedora porque já colocou muitas fichas na mesa. Ele acha que está investindo na chance de ganhar, mas está apenas cavando um buraco mais fundo.
O custo da oportunidade
Na filosofia da GuiaInvest, nós batemos muito na tecla do que controlamos e do que não controlamos.
Você não controla o que aconteceu com o preço da ação no passado. Você não controla se a empresa tomou decisões ruins ano passado. Isso está fora do seu alcance. Já aconteceu.
O que você controla é a sua alocação de hoje.
Sabedoria, como nos ensinam os estoicos e pensadores como Sêneca, é concentrar energia apenas naquilo que podemos influenciar. Quando você fica preso ao passado, tentando recuperar um custo afundado, você deixa de olhar para o futuro.
E o maior custo aqui não é nem o dinheiro que já foi perdido. É o custo de oportunidade.
Enquanto seu capital está preso em uma “esperança”, ele deixa de trabalhar para você em empresas sólidas, pagadoras de dividendos, ou em uma renda fixa segura que traga paz de espírito.
Morgan Housel, autor de A Psicologia Financeira, diz que a chave para o sucesso financeiro é a sobrevivência. E para sobreviver no longo prazo, você precisa ser capaz de cortar os galhos podres da árvore para que o restante possa crescer saudável.
Investir bem requer a humildade de dizer: “Eu errei nesta escolha, e a decisão mais inteligente agora é sair e realocar.”
Limpando o terreno
Eu quero propor um exercício prático para você hoje.
Olhe para a sua carteira de investimentos. Mas olhe com olhos de estranho, sem o apego emocional de quem comprou os ativos.
Identifique se existe algum ativo ali que você só mantém porque “já caiu demais” ou porque “precisa recuperar o prejuízo”.
Se a tese de investimento original não existe mais, se os fundamentos pioraram, se você não compraria aquilo hoje… considere, com carinho, a possibilidade de estancar a sangria.
Na GuiaInvest Wealth, nosso processo de seleção de ativos é pautado na qualidade e na coerência, não na esperança.
Nós não temos medo de mudar a rota se o cenário mudar, porque o nosso compromisso não é com a decisão passada, mas com o resultado futuro da sua família.
Libertar-se da falácia dos custos afundados tira um peso enorme das costas. Você para de olhar para o retrovisor e começa a olhar para o para-brisa.
Lembre-se: dinheiro se recupera. O tempo que você perde insistindo no erro, esse não volta mais.
Um abraço,
André Fogaça
P.S. Se você sente que tem ativos na sua carteira que estão lá apenas por “teimosia” ou dúvida, e gostaria de uma segunda opinião técnica e isenta para organizar a casa, nós podemos ajudar.
Convido você para uma Sessão de Diagnóstico Patrimonial Gratuita com minha equipe. Basta clicar aqui para agendar.
Esse conteúdo foi útil pra você? Clique aqui para deixar seu feedback.






