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O ingrediente que grandes vinhos e patrimônios têm em comum

Numa das caminhadas pelos vinhedos de Mendoza, o guia parou diante de uma parreira velha, de tronco grosso e retorcido, e disse uma coisa que eu fiquei remoendo o resto da viagem.
Imagem: tangol.

Numa das caminhadas pelos vinhedos de Mendoza, o guia parou diante de uma parreira velha, de tronco grosso e retorcido, e disse uma coisa que eu fiquei remoendo o resto da viagem.

Aquela videira, contou ele, tinha mais de 100 anos. Foi plantada por imigrantes que atravessaram o oceano no começo do século passado, e as pessoas que a puseram na terra nunca chegaram a provar o vinho que ela dá hoje. Elas plantaram para um futuro que não iam alcançar.

E tem um detalhe que eu não sabia. Uma parreira recém-plantada leva uns 3 anos só pra dar a primeira uva que presta. Pra chegar ao seu melhor, com raízes fundas e fruto concentrado, ela precisa de décadas. Os vinhos mais desejados do mundo costumam vir justamente dessas parreiras idosas, muitas com cinquenta, oitenta, cem anos de vida.

E foi ali que a ficha caiu, fechando o gancho que eu te deixei na carta passada: no vinho, o tempo é um ingrediente de verdade, no mesmo nível da uva, do solo e do clima. Aquilo que parece só espera é, na real, parte do que constrói o sabor.

Isso bate de frente com o jeito como quase todos nós lidamos com dinheiro. A gente diz que investe pra aposentadoria, pros filhos, pra daqui a 20 anos. Mas, na hora de decidir, age como se a linha de chegada fosse a próxima sexta-feira.

O ingrediente que não dá pra comprar

Deixa eu voltar um instante pra parreira, porque a lição inteira está nela.

Você pode comprar a melhor terra de Mendoza. Pode contratar o enólogo mais premiado. Pode plantar a muda mais nobre. Mas não existe dinheiro, nem tecnologia, que transforme 40 anos de videira em 40 meses. A profundidade daquele fruto vem de uma raiz que desceu fundo devagar, ano após ano. É algo que só o tempo entrega, e ele cobra o preço dele em anos, nunca em pressa.

Nos investimentos é idêntico. E o motivo de a gente não conseguir respeitar isso tem nome, estudado há décadas: o viés do presente, a nossa mania de dar muito mais peso ao agora do que ao depois.

Esse viés aparece menos no que a gente diz querer e mais no que a gente faz quando o presente entra em cena. Planejar investir por vinte anos é relativamente fácil enquanto o mercado está calmo e o dinheiro continua abstrato. Difícil é sustentar o mesmo plano quando surge uma queda forte, uma oportunidade sedutora ou uma vontade concreta de usar aquele dinheiro agora.

À distância, o futuro parece organizado: vamos poupar todo mês, ignorar o ruído e deixar os juros compostos trabalharem. Mas, quando chega o dia de cumprir o plano, o ganho futuro passa a competir com alguma coisa que está bem diante dos nossos olhos. E o agora ganha um peso enorme. Não porque deixamos de entender o longo prazo, mas porque uma recompensa ou uma ameaça presente é sentida com muito mais intensidade do que um benefício distante.

Os economistas Richard Thaler e Hersh Shefrin representaram esse conflito como uma disputa entre dois lados que convivem dentro da gente. Um é o planejador, que monta o plano de vinte anos com toda a lucidez. O outro reage ao que está diante dele agora e não está nem aí pro plano do primeiro. O planejador define a rota. O impulsivo é quem aperta os botões no dia a dia.

E aqui vai um consolo, porque essa impaciência tem menos de defeito de caráter e mais de fábrica. O nosso cérebro foi calibrado, ao longo de milênios, num mundo em que garantir o alimento de hoje valia muito mais do que uma promessa incerta pra daqui a dez invernos. Quem hesitava, muitas vezes, não via o amanhã. Esse instinto salvou os nossos antepassados. Nos investimentos, ele joga contra você, e faz isso com toda a boa vontade do mundo.

O adversário, aqui, é aquela vozinha que sussurra que o longo prazo é abstrato demais e que a jogada de agora é concreta, urgente, real. O horizonte de 20 anos não dói. A oportunidade de hoje parece que vai escapar entre os dedos. E assim, decisão a decisão, você vai encurtando o próprio prazo que tinha jurado respeitar.

O problema é que é exatamente esse prazo que faz o trabalho. Cada ano que você corta do seu horizonte, agindo no curto com um dinheiro que era de longo, é um ano de juros compostos que você entrega de graça. E os juros compostos, sobre um valor que já é grande e ao longo de muitos anos, respondem por quase todo o resultado. O que se perde ao encurtar o horizonte é justamente a fatia que mais cresceria.

O que o tempo faz sozinho

Desde que a gente fundou a GuiaInvest, em 2008, eu acompanho de perto a vida financeira de muita gente. E o tropeço que mais me marca raramente vem de quem arriscou e perdeu numa tacada, e sim de quem tinha um bom plano de 20 anos e o largou no meio do caminho, trocando um horizonte longo por uma pressa de poucos meses. O estrago não aparece de imediato, mas é dos mais caros que existem.

Deixa eu te dar o exemplo mais extremo que conheço, porque ele deixa a ideia cristalina. Morgan Housel, no livro A Psicologia Financeira, conta um dado que impressiona. Warren Buffett tem uma fortuna gigantesca, mas quase toda ela, algo como 81 dos seus 84 bilhões de dólares, foi acumulada depois que ele fez 65 anos. 

Buffett investe muito bem, sim. Só que o verdadeiro segredo dele tem menos a ver com genialidade do que a gente imagina, e mais com uma coisa só: ele vem investindo, sem interromper, desde os dez anos de idade. Como o próprio Housel resume, a habilidade de Buffett é investir, mas o segredo é o tempo.

É isso que os juros compostos fazem. Eles não fazem o dinheiro crescer em linha reta: ele rende, e depois passa a render também sobre o que já rendeu, e esse efeito só ganha tamanho de verdade depois de muitos e muitos anos. Ao encurtar o horizonte, você não abre mão de um pouquinho lá no fim: você corta fora justamente os últimos anos, que são os que mais engordam a conta.

Na prática, a saída é simples de dizer e difícil de executar: alinhar o horizonte das suas decisões com o horizonte dos seus objetivos. Se aquele dinheiro é pra daqui a vinte anos, ele merece ser decidido com a cabeça de vinte anos, e não com o humor desta semana.

Então fica aqui um exercício pra fazer com calma. 

Escolha uma decisão que esteja rondando a sua cabeça agora e, antes de agir, responda com sinceridade a uma única pergunta: pra quando é esse dinheiro, de verdade? 

Depois, decida a partir dessa resposta, e não a partir do que o mercado fez hoje de manhã.

Aprendi nas parreiras que o tempo constrói o vinho. Mas foi só no último dia da viagem que eu entendi uma diferença ainda maior, entre um vinho feito pra ser aberto neste ano e um vinho feito pra ser lembrado daqui a vinte. 

É onde a nossa viagem chega ao fim, e eu guardo essa pra carta final da série.

Fecho com um convite: me escreve contando qual é o horizonte real do seu maior investimento hoje, o prazo de verdade, não o do discurso. Respondendo a este e-mail, você fala direto comigo. 

E se, ao pensar nisso, você notar que as suas decisões e os seus objetivos vêm andando em ritmos diferentes, colocar os dois no mesmo compasso costuma ser bem mais fácil ao lado de quem faz isso todo dia, e é o que os consultores da GuiaInvest Wealth oferecem no Diagnóstico Patrimonial, uma conversa gratuita e sem compromisso. 

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As melhores uvas vêm de parreiras que alguém teve a paciência de plantar muito antes de colher. Com o seu dinheiro, o ingrediente que quase sempre falta atende por um nome só: tempo. E tempo não aceita atalho.

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