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Saídas do Brasil cresceram 80%. O que mudou?

As declarações de saída definitiva do país cresceram quase 80% entre 2021 e 2026, segundo o painel oficial da Receita analisado em artigo recente no Consultor Jurídico.
Imagem: freepik.

Durante décadas, a decisão de deixar o país foi emocional: cansaço com a insegurança, frustração com a política, o desejo de criar os filhos em outro ambiente. Eram razões legítimas — mas eram sentimentos. E sentimentos oscilam com o noticiário.

O que os dados mais recentes da Receita Federal revelam é outra coisa. As pessoas estão saindo por aritmética. E isso deveria preocupar mais, não menos.

Deixe-me mostrar os números antes de dizer o que penso deles.

As declarações de saída definitiva do país cresceram quase 80% entre 2021 e 2026, segundo o painel oficial da Receita analisado em artigo recente no Consultor Jurídico. A série histórica já vinha subindo há mais de uma década — eram cerca de 7 mil declarações em 2011, 28 mil em 2021 —, mas 2025 e 2026 registraram um pico atípico, fora da curva de tudo o que veio antes.

Poderia ser uma peculiaridade brasileira. Não é. A Henley & Partners, referência global em migração de patrimônio, projeta o recorde de 165 mil indivíduos de alto patrimônio trocando de país em 2026 — a maior realocação de riqueza privada já medida. O capital está se movendo no mundo inteiro. A questão é por que o Brasil acelerou mais que a média.

E aqui está o ponto que me interessa: o motivo mudou de natureza.

Quem estuda o fenômeno aponta uma sequência precisa de eventos. A Lei 14.754, de 2023, encerrou o diferimento das offshores — lucros de estruturas no exterior passaram a ser tributados anualmente em 15%, distribuídos ou não, e trusts ficaram transparentes para o Fisco. A Lei 15.270, de 2025, trouxe a tributação de dividendos e o imposto mínimo. E a Emenda Constitucional 132, regulamentada em janeiro pela Lei Complementar 227, redesenhou a herança no Brasil: progressividade obrigatória do ITCMD, base de cálculo a valor de mercado e alcance sobre bens no exterior.

Para dar concretude: São Paulo, que hoje cobra 4% fixos sobre heranças, já tem projeto prevendo alíquotas progressivas de 2% a 8% — com o teto incidindo sobre transmissões acima de aproximadamente R$ 1 milhão. A maior isenção sucessória do estado cobre apenas o imóvel de residência de até R$ 192 mil. Nos Estados Unidos, para efeito de comparação, o imposto federal sobre heranças só alcança, desde este ano, o que exceder US$ 15 milhões — para quem está estruturado do lado certo da linha.

Some a isso uma carga tributária de 32% do PIB — contra 21% da média latino-americana — e a última posição, entre os 30 países de maior carga do mundo, no retorno que esses tributos geram à sociedade. A conta que antes era feita com o coração passou a ser feita na planilha. E a planilha não tem saudade.

É por isso que o pico de saídas me parece mais grave do que as ondas emocionais do passado. Quando as pessoas saíam por frustração, bastava o humor do país melhorar para o fluxo reverter. Quando saem por matemática, só a matemática reverte o fluxo. O Brasil perdeu algo silencioso e valioso: a presunção de permanência — aquela premissa implícita de que o contribuinte de maior patrimônio ficaria aqui de qualquer jeito, pagasse o que pagasse.

Agora, a conclusão que quase todo mundo tira desses dados está errada.

A leitura apressada é: “então preciso decidir se fico ou se vou embora”. Falso dilema. A maioria absoluta dos investidores que atendo não quer sair do Brasil — a empresa está aqui, a família está aqui, a vida está aqui. E não precisam sair. O que os dados exigem não é uma mudança de endereço. É uma mudança de arquitetura.

Nassim Taleb tem um conceito que organiza isso melhor do que qualquer planejamento tributário: opcionalidade. Ter a opção sem ter a obrigação. Quem estrutura patrimônio internacionalmente não está decidindo partir — está comprando o direito de nunca precisar decidir às pressas. Os 80% de aumento nas saídas são, em grande parte, pessoas que não tinham essa opção construída e foram empurradas para a decisão binária: aceitar as novas regras por inteiro ou romper com o país por inteiro.

Entre esses dois extremos existe um território amplo — residência fiscal aqui, patrimônio com estrutura global; vida no Brasil, sucessão desenhada em jurisdição previsível; empresa operando em reais, reserva estratégica em moeda forte. E há também quem, depois de fazer a conta, conclua que a mudança completa é o caminho certo para a sua família. É uma decisão legítima — eu mesmo a tomei. Mas saída fiscal malfeita cria mais problemas do que resolve: bitributação, contas encerradas na hora errada, patrimônio preso entre dois sistemas. Ficar com estrutura ou sair com método — o erro é fazer qualquer um dos dois de forma improvisada.

O êxodo virou planilha. A sua resposta a ele também deveria começar por uma — o mapa frio de onde você está exposto às regras que mudaram e de qual caminho faz sentido para o seu caso: internacionalizar o patrimônio mantendo sua vida no Brasil ou planejar uma transição completa com segurança. É exatamente essa primeira conta que o Diagnóstico Patrimonial Gratuito da GuiaInvest faz com você, seja qual for o seu ponto de partida.

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 — Daniel Fogaça

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