No fim de semana, um gestor que carrega duas décadas de reputação construída sobre uma única previsão publicou uma carta nova. John Hussman ficou conhecido por anunciar, ainda no auge da euforia, o estouro da bolha das empresas de internet no início dos anos 2000.

Agora ele descreve o momento das ações americanas como o maior período de especulação já registrado, com o S&P 500 podendo perder até três quartos do seu valor nos próximos anos. A carta circulou rápido e chegou também a quem carrega Nvidia na carteira, empresa que já perdeu cerca de um trilhão de dólares em valor de mercado desde maio. Diante de um número desse tamanho, vindo de uma voz com esse histórico, a reação mais natural é pensar em vender.
Só que os números ao redor dessa mesma Nvidia contam uma história estranha para quem espera uma bolha estourando. A ação, símbolo maior da euforia com inteligência artificial, hoje negocia a um múltiplo de dezoito vezes o lucro projetado, abaixo do S&P 500, que negocia acima de vinte vezes, e do Nasdaq 100, próximo de vinte e três vezes.

No mesmo período em que a ação caiu, a estimativa de lucro da empresa para o próximo ano subiu. Entre as mais de oitenta instituições que acompanham o papel, apenas uma recomenda venda. Uma bolha de verdade costuma vir acompanhada de lucros que não se sustentam e de analistas revisando projeções para baixo. Aqui, o preço caiu e o fundamento subiu ao mesmo tempo, o que é uma combinação incomum, e vale a pena entender por quê.
A resposta aparece quando se olha para onde o dinheiro foi, e não apenas para onde ele saiu. Enquanto a Nvidia perdia valor, fabricantes concorrentes de chips de memória, como a Micron, subiam mais de duzentos por cento no ano. O capital não deixou a inteligência artificial, apenas trocou de endereço dentro dela. Isso muda a pergunta que realmente vale fazer.
A questão não é se a inteligência artificial, como tema geral, é uma bolha prestes a estourar de uma vez para todo mundo, e sim qual empresa específica vai capturar o valor real dessa tecnologia ao longo dos próximos anos, uma pergunta bem mais difícil, que a palavra bolha convenientemente permite não responder.
Esse tipo de reorganização não é exclusividade da inteligência artificial. Apareceu durante a construção das ferrovias americanas no século dezenove e de novo durante a expansão da eletricidade no início do século vinte. A tecnologia avançava, gerava valor real, e ao mesmo tempo trocava de mãos entre as empresas que a entregavam, até ficar claro quais delas tinham um negócio duradouro por trás do entusiasmo inicial.
Algo parecido aconteceu na crise que Hussman previu há vinte anos. Aquela bolha não destruiu valor de forma uniforme. Empresas sem receita real desapareceram, mas negócios que geravam caixa de verdade, como a própria Amazon, atravessaram a crise e saíram do outro lado maiores do que entraram.
Quem vendeu tudo porque a palavra bolha estava em toda manchete perdeu a chance de diferenciar as duas situações. Rótulos são úteis para começar uma conversa, mas perigosos quando substituem o trabalho de examinar cada posição da carteira pelos seus próprios méritos.
Isso não significa ignorar o alerta de um gestor que já acertou uma vez, nem descartar a possibilidade real de uma correção maior à frente. Significa que a pergunta certa, diante de qualquer manchete sobre bolha, nunca é se deve vender tudo por reflexo, e sim entender, ativo por ativo, o que exatamente está sendo precificado e por quê.
Na próxima vez que uma palavra desse tamanho aparecer associada a uma posição da sua carteira, vale se perguntar: você conhece os números por trás dela, ou está reagindo ao barulho ao redor?
Um Diagnóstico Patrimonial existe justamente para essa conversa, entender o que cada ativo da carteira está de fato precificando antes que a próxima manchete alarmante force uma decisão apressada.
[Clique aqui para agendar sua reunião]
Forte abraço!
Eduardo Voglino






