Para o investidor de bolsa brasileiro, janeiro de 2026 foi aquele tipo de mês que ativa o gatilho mais perigoso do mercado: a ganância.
O Ibovespa fechou o mês com alta de 12,56% (terceira maior alta mensal desde 2010). Poucos dias depois, no começo de fevereiro, o índice renovou máximas e passou a orbitar a marca simbólica de 185 mil pontos, em meio à leitura mais dovish do Banco Central e à repercussão da ata/comunicado do Copom.
A pergunta que eu venho ouvindo de investidores de alta renda (e que você provavelmente também está se fazendo) é direta: “agora vai?” Vai continuar subindo? Ou foi o “melhor dos mundos” concentrado em 30 dias e o mercado já está caro demais?
Minha proposta para hoje é estruturar a análise de forma que seja realmente útil para quem investe com capital de verdade, apresentando:
- Uma âncora estatística inequívoca.
- Um cenário base bem fundamentado na macroeconomia.
- Um plano de ação prático, crucial para evitar ser dominado pelas emoções em um ano de eleições.
O mercado gosta de narrativas porque elas reduzem a complexidade. E o “Efeito Janeiro” é uma das mais sedutoras. A ideia de que um janeiro forte tende a antecipar um ano bom para ações.
Nas últimas 10 vezes em que janeiro foi positivo, a média do retorno foi de 30% de alta no ano. Então, onde o Ibovespa pode chegar em dezembro de 2026?
Vamos transformar isso em números, porque é aqui que a curiosidade técnica pode se misturar com o sentimento da ganância.
- Abertura do IBOV de janeiro: ~160.500 pontos.
- Projeção “estatística” (média): +30% no ano
- Conta rápida: 160.500 × 1,30 ≈ 208.650 pontos.
Sim: pela lente fria da estatística, o “alvo” implícito estaria na região de 208 mil pontos em dezembro deste ano para o índice IBOV.
Agora vem a parte adulta da conversa: estatística sem fundamento vira superstição. E o mercado não paga superstição por muito tempo.
Quando um índice sobe 12,56% em um único mês, você precisa separar três coisas:
- o que foi reprecificação (múltiplos expandindo);
- o que foi melhora real de expectativa (juros, inflação, crescimento);
- o que foi fluxo (principalmente estrangeiro).
E aqui entram os fundamentos que o mercado está precificando como “combustível” para continuar o movimento de alta.
Inflação: o mercado comprou o cenário de normalização
O Boletim Focus mostra queda da projeção de IPCA 2026 para 3,99% (de 4,02%), aproximando a narrativa de “inflação sob controle”, ainda que não seja a meta cheia. Num país que viveu por anos com inflação desancorada, essa simples percepção muda o apetite por risco e abre espaço para juro futuro cair.
Juros: o Copom colocou março no radar
O Copom manteve a Selic em 15% ao ano e sinalizou que, se o cenário projetado se confirmar, pode iniciar a flexibilização da política monetária na reunião de março. O começo da trajetória de queda nos juros alivia custo de capital e melhora valuation de setores sensíveis a juros (varejo, construção, small/mid caps).
“Profecia” dos 185 mil: mais símbolo do que destino
A marca recente de 185 mil pontos do índice IBOV virou headline porque é um recorde psicológico e porque coincide com uma mudança de humor: saiu a sensação de “Brasil travado” e entrou o discurso de “virada de ciclo” (inflação cedendo + juros no pico + início de corte no radar). Isso atrai o investidor que estava subalocado e, no curto prazo, o preço é fluxo.
E finalmente você pode se perguntar, estamos frente a um Rali histórico ou bolha de otimismo?
A minha leitura é a seguinte: não é bolha no sentido clássico (euforia sem lastro), mas pode virar uma “mini-bolha tática” caso as empresas não consigam entregar o crescimento do lucro projetado para este ano de 2026.
Alguns pontos que não podemos esquecer:
- O Brasil entra em 2026 com o mercado enxergando juros menores e inflação convergindo, mas o ano é eleitoral e isso costuma aumentar volatilidade e ruído fiscal/político.
- Depois de um janeiro tão forte, cresce o risco de “perseguição de preço” (comprar porque subiu), exatamente o comportamento que transforma alta saudável em entrada ruim.
- É um desafio discernir se a entrada de capital estrangeiro é uma estratégia de curto prazo ou um movimento de longo prazo, dado o risco de que esses recursos possam ser retirados com a mesma velocidade que foram aplicados.
A questão não é “vai subir ou cair?”, mas sim: qual o cenário atual e qual será o plano de ação caso ocorra a correção? Já que provavelmente iremos ter correções em algum momento de 2026.
Eu vou ser bem objetivo e, ao mesmo tempo, pragmático:
Sim, o movimento pode continuar se o fluxo seguir positivo e o mercado global continuar rotacionando capital para emergentes. (O Ibovespa se encontra em um estágio onde até mesmo uma notícia “boa o suficiente” serve de argumento para uma nova leve expansão de seus múltiplos.)
No entanto, considero muito saudável começar a fazer vendas parciais daquilo que subiu demais e ficou com múltiplos claramente acima da própria média histórica, especialmente quando a tese virou consenso e o “upside” começa a depender mais de euforia do que de lucro.
Você não precisa “vender tudo” para ser disciplinado. Você precisa rebalancear a carteira, buscando uma adequada gestão de risco.
O que estamos fazendo atualmente com alguns clientes da consultoria:
- Realizações parciais em posições que já entregaram um retorno fora da curva no curto prazo e hoje exigem cenário perfeito para continuar se valorizando.
- Direcionar parte desse montante para:
- ações/teses que ainda estão descontadas (reprecificação atrasada);
- recomposição de caixa (para comprar correções);
- proteção e balanceamento (para atravessar volatilidade eleitoral).
É fundamental lembrar que as ações brasileiras devem compor apenas uma parcela de um portfólio de investimentos diversificado e robusto. Tal carteira deve incluir ativos globais, investimentos de renda fixa, alternativos e estratégias que não fiquem à mercê do cenário e do sentimento de um único país.
Atente-se que a ganância é um ótimo combustível para o mercado, e um péssimo conselheiro para o investidor de longo prazo.
Até onde a alta do IBOV vai chegar? Não temos como saber, mas sim temos como nos posicionar para estar preparados para os novos movimentos do mercado, sem que o medo ou a ganância nos levem a cometer erros de alocação.
Se você ainda tem dúvidas sobre como agir neste momento de alta forte na bolsa brasileira, agende uma reunião gratuita com um dos nossos consultores para analisarmos seu portfólio e desenharmos um posicionamento coerente com seu patrimônio, seus objetivos e seu apetite a risco.
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