A combinação entre expectativa de corte de juros, reprecificação de ativos de risco e primeiros movimentos no mercado de capitais indica que a longa seca de IPOs no Brasil caminha para o fim, ainda que de forma gradual e seletiva.
Para o investidor de varejo, porém, isso não muda um ponto estrutural: entrar em oferta inicial (IPO) continua sendo, na média, um jogo assimétrico, que exige disciplina de valuation e uma leitura fria da relação risco‑retorno.
Entre 2020 e 2021, a B3 viveu um dos ciclos mais intensos de aberturas de capital da sua história, com 74 novas empresas listadas nesse biênio, impulsionadas por uma Selic em mínimas históricas próximas de 2% ao ano.
O último IPO efetivo ocorreu em 2021, marcando o fim de um boom que incluiu nomes de diversos setores, de varejo a tecnologia e serviços.
Desde então, o mercado entrou em um hiato prolongado. Não houve novas estreias a partir de 2022, configurando a maior seca de IPOs em décadas. Esse vácuo veio na esteira da normalização monetária, com a alta expressiva da taxa básica de juros e maior aversão a risco, especialmente para histórias de crescimento com balanços mais alavancados.
Juros, múltiplos e reprecificação
Historicamente, o fluxo de ofertas de ações anda de mãos dadas com o ciclo de juros. Patamares mais baixos de Selic tendem a favorecer múltiplos mais altos, reduzindo o custo de capital e abrindo espaço para emissões primárias relevantes.
No momento, apesar de ainda estarmos em um nível de juros elevado, a curva de juros futuros já embute expectativa de cortes graduais ao longo de 2026, com projeções de Selic recuando dos atuais 15% para algo próximo a 12% ao ano ao fim de 2026.
Esse movimento de antecipação é visível em outros segmentos de risco. Estudos recentes mostram, por exemplo, que o IFIX já vinha entregando retorno bem acima do CDI mesmo com Selic em patamar alto, refletindo a queda das taxas prefixadas de longo prazo e a reprecificação dos ativos à frente.
A lógica é a mesma para ações, inclusive para IPOs. O mercado começa a pagar múltiplos mais altos não quando o corte se concretiza, mas quando ganha convicção de que a trajetória de juros reais é estruturalmente mais benigna.
Alguns movimentos recentes ajudam a compor esse quadro de reabertura, ainda embrionária, da janela de mercado.
A Cosan comunicou, nesta semana, que voltou a avaliar a realização de um IPO da Compass Gás e Energia, retomando um projeto que havia sido abortado em 2020 por deterioração das condições de mercado. A empresa vincula a eventual oferta a fatores como ambiente doméstico e externo e à conclusão de um processo de reequilíbrio de capital e governança na holding, que incluiu um aumento de capital de 10 bilhões de reais em 2025.
Do lado das ofertas subsequentes, o mercado já observa um aquecimento. No ano passado tivemos a volta de follow‑ons de empresas como Caixa Seguridade, Orizon, Méliuz e Pague Menos, em um movimento de desalavancagem, reforço de capital e reorganização de estrutura de funding. Esse tipo de operação costuma anteceder a reabertura plena da janela de IPOs, pois funciona como “teste de apetite” em nomes já conhecidos, com histórico de governança e liquidez estabelecido.
Bancos de investimento globais e a própria B3 vêm sinalizando 2026 como o ano mais provável para o fim formal da seca de IPOs no mercado local, após um intervalo de cerca de quatro anos sem novas listagens.
Projeções recentes do Citi apontam para uma retomada ainda moderada, liderada por companhias de infraestrutura e negócios mais maduros, com operações bilionárias e geração de caixa mais previsível.
Na mesma linha, o CEO da B3 tem destacado que o ciclo tende a começar por empresas consolidadas em setores como infraestrutura, saneamento e logística, antes de avançar para energia, indústria e tecnologia.
Esse desenho é consistente com o cenário macro. Mesmo com perspectiva de queda de juros, o custo de capital permanece restritivo, o que privilegia histórias com menor risco de execução e balanços mais robustos.
A lição do último ciclo de IPOs
Se tivermos de fato um novo ciclo de IPOs, o investidor de varejo chega a essa nova janela com um histórico recente que deveria servir de antídoto contra qualquer euforia. Estudos sobre o “boom” de 2020‑2021 mostram uma dispersão muito grande de resultados. Um percentual pequeno dos IPOs performou bem acima do Ibovespa, mas uma parcela relevante destruiu valor desde a estreia.
Há casos emblemáticos de empresas listadas naquele ciclo que hoje negociam como penny stocks, após forte compressão de múltiplos e revisões de crescimento para baixo.
O recado é claro: em ciclos de janela aberta de IPOs, a qualidade da tese e o preço pago importam mais do que o fato de a empresa estar “estreando” em Bolsa.
Assimetria de informação continua real
Um ponto estrutural não se altera com a reabertura da janela. A assimetria de informação em IPOs segue ampla.
A empresa e seus vendedores conhecem profundamente o negócio, a dinâmica competitiva, os riscos operacionais e o real uso dos recursos, enquanto o investidor de varejo chega à oferta com base em um prospecto denso, roadshows filtrados e, muitas vezes, pouco histórico auditado em regime de companhia aberta.
Essa assimetria ficou evidente no último ciclo, quando diversas ofertas foram precificadas em múltiplos muito superiores aos pares, sem que os fundamentos justificassem esse prêmio.
Além disso, o desenho das ofertas tende a proteger quem está vendendo. Alocações relevantes para investidores âncora, lock‑ups flexíveis para certos participantes e estruturas que misturam primária e secundária podem reduzir o alinhamento de interesses de longo prazo com o investidor de varejo.
Não é coincidência que boa parte do fluxo de follow‑ons recentes esteja ligada a equacionar balanços pressionados por dívidas caras, mais do que financiar crescimento orgânico de alta qualidade.
Como o investidor deve encarar a nova safra
Em um cenário de janela reabrindo, juros em queda e Bolsa reprecificando múltiplos mais altos, a tentação de “não ficar de fora” das novas histórias tende a crescer.
Do ponto de vista de alocação, porém, faz mais sentido encarar IPOs como uma etapa final do processo de análise, e não como um gatilho de investimento por si só.
Primeiro se avalia a qualidade do negócio, a geração de caixa, a estrutura de incentivos e a governança; só depois se discute se o preço proposto na oferta deixa algum prêmio de risco razoável.
Alguns aspectos práticos ajudam nessa filtragem:
- evitar teses excessivamente dependentes de crescimento inorgânico;
- desconfiar de ofertas em que a parcela secundária (saída de sócios) domina a primária (recursos para a companhia);
- comparar o múltiplo pedido com o de pares listados, ajustando por crescimento, margem e alavancagem;
- e considerar se não há alternativas já listadas, negociando com desconto e histórico comprovado.
Em muitos casos, a relação risco‑retorno será mais interessante em empresas que já passaram pelo teste do mercado do que na “novata da vez”.
A reabertura da janela de IPOs é um sinal saudável de normalização do mercado de capitais brasileiro. Mas, para o investidor de varejo, a melhor estratégia continua sendo seletividade máxima, foco em fundamento e disposição para dizer “não” à maioria das ofertas, por mais bem embaladas que pareçam.
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