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El Enemigo: o que Mendoza me ensinou sobre investir

A cordilheira dos Andes aparece no fim de quase toda rua, o clima é seco, e a paisagem é daquelas que fazem você parar em cada esquina.
Imagem: freepik.

Semana passada eu estava em Mendoza, numa viagem só eu e a minha esposa.

Fui por uma combinação de coisas de que eu gosto: caminhar perto das montanhas, entender um pouco mais de vinho e fotografar sem pressa. 

A cordilheira dos Andes aparece no fim de quase toda rua, o clima é seco, e a paisagem é daquelas que fazem você parar em cada esquina. Pra quem gosta de fotografia como eu, é um dos lugares mais inspiradores que já conheci, e olha que hoje eu nem carrego mais câmera: o celular no bolso já dá conta de guardar aquilo tudo. 

Foi assim que passamos alguns dias, e uma das visitas rendeu esta conversa.

Num dos dias, fui a uma vinícola que praticamente todo mundo chama de El Enemigo. O nome verdadeiro do lugar é Casa Vigil, em Chachingo, na região de Maipú. 

É meio vinícola, meio restaurante e meio galeria de arte a céu aberto: você caminha entre as videiras e vai esbarrando em esculturas, quadros e instalações em cada canto. Levei mais tempo do que imaginava só andando pelo jardim, antes mesmo de a degustação começar.

Mas o que me pegou não foi a arte. Foi o nome na garrafa.

El Enemigo. O inimigo.

Aquilo ficou na minha cabeça. Porque a pergunta que o nome sugere é meio incômoda, e vale tanto pra quem faz vinho quanto pra quem cuida de dinheiro: e se o maior inimigo do seu patrimônio não estiver lá fora, no mercado, na economia, no noticiário, mas sentado exatamente onde você está agora?

A história por trás do nome

O enólogo por trás da casa, Alejandro Vigil, não é um nome qualquer. 

Ele é o chefe de enologia da Catena Zapata, uma das vinícolas mais importantes da Argentina, e ganhou no meio do vinho o apelido de Messi do vinho. Foi dele o primeiro rótulo argentino a receber a nota máxima, 100 pontos, dos críticos mais rigorosos do mundo.

Existem duas versões pra origem do nome El Enemigo, e o próprio Vigil conta as duas. A que ele considera verdadeira envolve Nicolás Catena, o patriarca dessa família.

Anos atrás, Catena pediu ao Vigil que montasse um corte pra um dos seus vinhos mais importantes. Numa prova às cegas, o corte do Vigil foi o preferido. Tempo depois, Catena perguntou como ele tinha chegado àquele resultado. 

E o Vigil, que já nem lembrava direito, respondeu que tinha feito aquilo brincando, como uma criança, sem medo. Catena então soltou uma frase que acabou virando o eixo do projeto inteiro: “O pior inimigo do homem é o medo. Medo de mudar, medo de fazer coisas novas.”

Foi daí que nasceu o El Enemigo. Um lembrete, estampado na própria garrafa, de que o adversário mais difícil de vencer quase sempre é interno.

No mundo do vinho, isso é filosofia. No mundo dos investimentos, virou estatística.

Existe um levantamento que acompanha esse fenômeno há quase duas décadas, feito pela Morningstar, uma das maiores casas de análise de fundos do planeta. 

Eles comparam duas coisas que deveriam ser iguais: quanto um fundo rendeu e quanto o investidor daquele fundo levou de fato pra casa. Não são iguais. Ano após ano, o investidor médio termina com cerca de um a quase dois pontos percentuais a menos por ano do que o próprio fundo em que ele investe. 

Some pouco a cada vez. O incômodo é que some sempre pela mesma razão: a pessoa compra empolgada depois que tudo já subiu e vende assustada depois que tudo já caiu. Ao longo do tempo, isso corresponde a perder algo perto de 15% de tudo o que aquele fundo produziu.

Repara que a diferença não está no produto: o fundo é exatamente o mesmo pra todo mundo. Ela está na mão que aperta comprar e vender na hora errada.

E aqui eu quero tirar um peso das suas costas, se você já fez isso alguma vez. Vender no fundo do poço, entrar em algo só depois que todo mundo já tinha ganhado, largar uma boa estratégia no primeiro ano ruim: nada disso é burrice, e não tem nada a ver com falta de informação. 

Daniel Crosby, que estuda a psicologia de quem investe, mostra que a gente foi construído desse jeito. O mesmo cérebro que te mantém vivo diante de um perigo real é o que te faz correr da queda e perseguir a alta. Ele é veloz, é emocional, e no mercado ele costuma te empurrar na direção errada com a melhor das intenções.

Ou seja, o adversário não veste roupa de vilão. Ele aparece como um aperto no peito quando a tela fica vermelha. Como a vontade de fazer alguma coisa, qualquer coisa, só pra sentir que você está no controle. Como o conforto de acompanhar a manada, porque errar junto dói bem menos do que errar sozinho. 

É humano e é previsível. E é justamente por ser previsível que dá pra se preparar pra ele.

Num patrimônio grande, esse detalhe pesa ainda mais. Um ou dois pontos por ano parecem irrelevantes numa conversa de fim de semana. 

Só que, sobre alguns milhões e ao longo de vinte, trinta anos, esse pedacinho que escorre a cada decisão apressada se transforma numa fatia enorme do que poderia ter sido construído. Ninguém enxerga isso num dia. Você enxerga numa década.

O que o enólogo faz de mais inteligente

Tem uma coisa que eu aprendi ali e que mexeu com o jeito como eu penso na minha própria carteira.

O Vigil é obcecado por não atrapalhar o vinho. A filosofia da casa é intervir o mínimo possível e deixar o terroir, que é o conjunto de solo, clima e altitude de cada pedaço de terra, falar por si. Em bom português: o trabalho mais sofisticado dele é sair da frente.

Penso nisso e me vejo nos meus primeiros anos investindo. 

Comprei minha primeira ação em 2004. De lá pra cá, já passei por mais de uma queda forte, dessas que deixam a tela toda vermelha, e conheço na pele aquele frio na barriga que faz a mão ir sozinha na direção do botão de vender. 

Invisto o meu dinheiro e o da minha família há mais de vinte anos, e a lição mais cara que o tempo me deu não foi descobrir o ativo perfeito. Foi aprender a não estragar as boas decisões que eu já tinha tomado.

Porque é isso que quase ninguém te conta. Você não vai eliminar o medo. Ele vai aparecer de novo, sempre. O que dá pra construir é uma distância entre o impulso e a ação.

Na prática, essa distância tem nome: um plano decidido com a cabeça fria, antes de a tempestade chegar. 

Quando as regras do que fazer numa queda já estão escritas de antemão, é o seu eu racional de ontem que decide, e não o seu eu assustado de hoje. O plano é o que fica entre o seu medo e o seu dedo. É o seu equivalente a sair da frente e deixar o vinho amadurecer.

Fica uma provocação pequena pra você levar pra semana. 

Na próxima vez que o mercado balançar e a sua mão for atrás do aplicativo, antes de fazer qualquer coisa, pergunte só isto a si mesmo: eu estou decidindo, ou estou reagindo? 

Muitas vezes, essa única pergunta já muda a resposta.

Eu saí da Casa Vigil achando que a lição fosse sobre o medo, e só. Mas uns dias depois, numa sala tomada por barricas de carvalho, um outro tipo de conversa me levou a uma segunda ideia que eu não tinha visto chegar: por que o gesto mais difícil, tanto no vinho quanto no dinheiro, muitas vezes é simplesmente não fazer nada. 

Semana que vem eu te conto essa.

Antes disso, me responde uma coisa: qual foi a decisão de investimento de que você mais se arrepende de ter tomado no susto? 

Pode responder este e-mail, eu leio tudo. 

E se, lendo até aqui, você percebeu que ia gostar de um olhar de fora pra saber se a sua carteira está montada pra resistir ao seu próximo momento de medo, é exatamente isso que os consultores da GuiaInvest Wealth fazem no Diagnóstico Patrimonial, uma conversa gratuita e sem compromisso, pensada pra te dar clareza. 

No fim das contas, o mercado raramente destrói um bom patrimônio. Quem costuma fazer isso é a pressa de quem cuida dele.

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