Há seis meses, Nova York colocou no poder um prefeito que prometeu duas coisas simples: congelar o aluguel e taxar os ricos. Eu acompanhei de perto — moro a poucas horas dali, e já vi esse roteiro antes, em outro país, com outro sotaque.
Os números que saíram essa semana não deixam dúvida. O aluguel de um quarto em Manhattan bateu recorde histórico. Não apesar do congelamento. Por causa dele.
Isso não é sobre política americana. É sobre o que acontece, sempre, quando um governo tenta decretar que a escassez não existe.
Em junho, o Conselho de Diretrizes de Aluguel de Nova York aprovou, por 7 votos a 1, reajuste zero para os contratos de aluguel estabilizado — cerca de um milhão de unidades, quase 40% do mercado de locação da cidade. Era a principal promessa de campanha do novo prefeito, cumprida à risca.
O problema é que preço não é a causa da escassez. É o sintoma dela. Este não é um debate ideológico — é um dos raros temas em que economistas de espectros políticos opostos convergem: represar artificialmente o preço de um bem não elimina a escassez, só transfere o custo dela para outro lugar do sistema. Com o teto travado, o aluguel de um quarto em Manhattan chegou a US$ 5.408. Em Brooklyn, US$ 4.297 — recordes históricos nos dois principais bairros, no mesmo mês em que o congelamento deveria estar segurando os preços. Parte relevante do quase 1 milhão de imóveis “protegidos” está simplesmente vazia: reformar uma unidade custa hoje mais de US$ 50 mil, e com o teto travado, o retorno não fecha a conta. O apartamento vira estoque parado, não moradia.
A segunda promessa de Nova York — taxar os ricos — também já deixa rastro, na direção contrária à pretendida. Cerca de 45% de todo o imposto arrecadado pelo estado vem do 1% mais rico da população, e essa fatia vem encolhendo desde 2022, de 12,7% para 8,7% da base de contribuintes. A Apollo, gestora com quase US$ 1 trilhão sob gestão, escolheu Austin para sua segunda sede, levando cerca de mil empregos. A Citadel mudou sua sede para Miami e estuda abandonar uma torre de US$ 6 bilhões em Manhattan. O Goldman Sachs já orienta parte do time a migrar para o Texas ou deixar a empresa. O JPMorgan tem hoje mais funcionários no Texas do que em Nova York — a mesma Nova York onde fica Wall Street. Nenhuma dessas empresas fez uma declaração política. Fizeram uma conta.
E essa conta não é um fenômeno isolado de Nova York — é a fotografia local de um movimento global. O relatório Private Wealth Migration 2026, da Henley & Partners, projeta que 165 mil milionários vão trocar de país neste ano, a maior migração de riqueza já registrada, superando os 142 mil de 2025. Capital de alto patrimônio não está mais esperando o resultado de nada — está se posicionando antes.
O Brasil já sente esse movimento na pele, e o dado é recente: só em 2025, 1.200 brasileiros de alto patrimônio deixaram o país, levando consigo cerca de US$ 8,4 bilhões — R$ 43 bilhões — em riqueza. E, no mesmo relatório da Henley, o Brasil pontuou 64,2 no índice de competitividade para atrair e reter grandes fortunas, atrás de Uruguai (71,8), Panamá (71,5) e Costa Rica (70,2) — classificado entre os países latino-americanos com “desafios persistentes” nessa disputa. Ou seja: mesmo antes de qualquer urna abrir em outubro, o Brasil já está perdendo a corrida por manter dentro de casa a riqueza que ele mesmo produz.
Nassim Taleb descreve bem essa dinâmica quando fala de fragilidade sistêmica: sistemas que dependem de uma única fonte de sustentação — um único contribuinte, uma única jurisdição, um único resultado de urna — carregam um risco que só aparece quando já é tarde para corrigi-lo. Nova York está descobrindo isso ao vivo, com um mandato de quatro anos. O Brasil tem outubro pela frente, e o que está em jogo não cabe num ciclo eleitoral.
O maior erro que eu vejo de muitos investidores, dos dois lados da fronteira, não é escolher entre Estado grande ou Estado pequeno, entre o partido A ou o partido B. É manter todo o seu patrimônio refém do resultado de uma única eleição, seja ela qual for, só porque foi ali que você nasceu. Não existe almoço grátis: sempre tem alguém pagando a conta, e o dinheiro inteligente já sabe que não é ele quem vai ficar segurando a ponta quando ela chegar — nem em Manhattan, nem em outubro.
A pergunta que importa não é em quem você vai votar, ou qual candidato vai ganhar. É o que acontece com o seu patrimônio se o resultado, qualquer que seja, vier na direção que você não esperava. Quem já tem estrutura internacional não precisa torcer para ninguém em outubro. Quem não tem, está na mesma posição do nova-iorquino que apostou tudo em ficar em Manhattan.
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— Daniel Fogaça






