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Por que Não ter Todo o Seu Patrimônio em uma Única Moeda?

Antes de perguntar se a Selic vai subir ou cair, ou se o dólar vai bater essa ou aquela marca, talvez a pergunta mais útil seja outra.
Imagem: freepik.

Na semana passada conversei com um empresário que, olhando o extrato consolidado, se sentiu tranquilo. Renda fixa rendendo bem, imóveis valorizando, participação na empresa crescendo. Tudo em reais, tudo dentro do Brasil, tudo aparentemente sob controle.

Fiz uma pergunta simples para ele. Quantas dessas decisões que sustentam seu patrimônio dependem de uma reunião do Copom, de uma votação no Congresso ou de uma manchete sobre o rumo fiscal do país. Ele parou para pensar e percebeu que a resposta era praticamente todas.

Isso não é um erro de gestão. É uma consequência natural de viver e investir no Brasil. Mas vale entender o mecanismo por trás disso, porque ele explica muito do que acontece com patrimônios grandes ao longo do tempo.

A Selic está em 14,25% ao ano, definida pelo Copom em junho. É uma taxa alta para padrões globais, e por um bom motivo. Ela não existe isolada. Ela é, em boa parte, um prêmio que o investidor recebe para aceitar o risco de estar exposto ao Brasil, à nossa inflação, ao nosso quadro fiscal e à nossa moeda. Quando esse prêmio parece generoso, é fácil esquecer que ele existe justamente porque o risco também é real.

E esse risco aparece com clareza no câmbio. Nos últimos doze meses, o dólar oscilou entre cerca de R$ 4,89 e R$ 5,63. Uma variação de quase 15% no mesmo período. Isso significa que, mesmo sem sair do lugar, o poder de compra internacional de um patrimônio inteiramente em reais pode se movimentar de forma expressiva, para cima ou para baixo, a depender de decisões que o investidor não controla e muitas vezes nem acompanha de perto.

O ponto não é prever se o dólar vai subir ou cair, nem tentar acertar o próximo movimento do Copom. Ninguém consegue fazer isso de forma consistente, e não é essa a discussão. O ponto é outro. Quando cem por cento do patrimônio depende do mesmo país, da mesma moeda e das mesmas decisões de política econômica, qualquer erro de leitura, qualquer choque fiscal ou qualquer mudança brusca de cenário afeta tudo ao mesmo tempo. Não existe parte do patrimônio reagindo de um jeito diferente para equilibrar o conjunto.

Um estudo da FGV mostrou algo que ajuda a dimensionar isso. Quando se pondera o patrimônio financeiro dos brasileiros entre renda fixa, ações e multimercados, menos de dois por cento está fora do país. O Brasil está entre as nações com maior concentração doméstica do mundo, atrás apenas de poucos exemplos como a Indonésia. Outros levantamentos apontam que uma exposição internacional mais equilibrada, para quem quer reduzir o efeito do câmbio sobre o poder de compra, tende a ficar bem acima disso. A distância entre o que se pratica e o que seria mais equilibrado é grande.

Isso não quer dizer que ter patrimônio no Brasil seja um erro. O Brasil paga juros altos, tem oportunidades reais e faz sentido continuar presente na vida financeira de quem construiu patrimônio aqui. A questão é outra: até que ponto esse patrimônio está organizado para que uma única fonte de risco, o risco Brasil, não consiga comprometer o todo.

Pense assim. Se o patrimônio está em uma moeda só, ele está apostando implicitamente que essa moeda vai se manter estável ou se valorizar. Se está em uma geografia só, está apostando que aquele país vai manter a mesma trajetória de juros, inflação e política fiscal pelos próximos anos, décadas até, dependendo do horizonte do investidor. São apostas que ninguém faz de forma consciente, mas que acabam acontecendo por acúmulo, por comodidade ou simplesmente porque nunca pararam para olhar o patrimônio como um conjunto.

Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, e nenhum cenário macroeconômico é garantido, nem no Brasil nem fora dele. Mas existe uma diferença entre um patrimônio que depende de acertar o cenário e um patrimônio construído para atravessar diferentes cenários sem que um único erro de leitura comprometa o conjunto.

Antes de perguntar se a Selic vai subir ou cair, ou se o dólar vai bater essa ou aquela marca, talvez a pergunta mais útil seja outra. Quanto do seu patrimônio hoje depende de uma única decisão tomada em Brasília para continuar valendo o que vale?

Se essa pergunta te deixou pensando, o Diagnóstico Patrimonial é o primeiro passo para enxergar com clareza quanto do seu patrimônio está concentrado em uma única geografia, moeda e conjunto de decisões, e o que isso significa para o seu plano de longo prazo.

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